Simples e natural

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Desde os primeiros tempos do homem organizado em sociedade e agrupado em suas vilas, cidades e metrópoles, ele não tem pleno controle sobre fenômenos naturais e suas consequências. Estes até foram os promotores também da própria urbanização e instigadores de grande valia do grau de desenvolvimento que temos hoje. Estes fenômenos levaram o homem a se ajustar, adaptar-se, dominar, tirar proveito, facilitar a sua vida. Superar desastres naturais foi e continua sendo desafios para a mente humana.

Nossos hábitos e modo de vida – consumista e explorador – trazem malefícios gerais, voltando estes contra nós mesmos. Por nós mesmos transformarmos em desastres o que nem teria esse alcance. Tenho para mim que muitas vezes porque deixamos de ser observadores racionais e não aprendemos nem praticamos aquilo que a simplicidade tem de abrangente. Nestes tempos chuvosos em nosso hemisfério sempre sou instigado com algum pensamento sobre as causas disso. Em nossas cidades de qualquer tamanho que sejam, uma chuva mais intensa ou mais demorada causa transtornos como se fora de proporções muito maiores. Hoje resolvo aceder ao pensamento inquietante e registrar, depois de uma demorada relutância.

O que observamos? Os grandes e até pequenos aglomerados urbanos não dimensiona, ou o fazem mal, a área impermeabilizada para uma suficiente drenagem das águas derramadas pelos céus. O curso natural e primitivo dos mananciais regularmente são modificados e não são preservadas, nas margens destes, as áreas de escape, que formam um complemento do leito ou calha. Pelo contrário são objeto de ocupação e especulação imobiliaria, quando deveriam ter como destinação: áreas verdes, parques etc.  Como consequência: as inundações, alagamentos de ruas, transbordamento de rios; bens e pessoas sendo arrastados por caudal de águas que ocupam as vias públicas. Os lixos, que produzimos e descuidamos, são também ai carreados. Os leitos dos rios externos à área urbana, destino final dessas águas, vão sendo assoreados. Diminuem ainda mais suas calhas.

Pura falha atávica em observar. Constatação: a bela vegetação ciliar em qualquer manancial só existe porque seu leito não é impermeável. Isto equivale dizer que por onde a água passa, parte de seu volume vai impregnando o solo e traz vida continuando a ser água em todo o seu ciclo. Mesmo que haja uma precipitação maior os mananciais têm capacidade e mecanismos de ajuste. A força da correnteza será determinada pela topografia e volume do caudal contido na calha.

Nas áreas urbanas, impermeabilizadas pelas vias publicas e edificações, fica oferecida para escoamento das águas das chuvas um leito plano, o das pistas de rodagem. Dependendo também da topografia, essa corrente é conduzida e aumenta a cada metro o seu caudal e em consequência a sua força. As galerias pluviais existentes não são capazes de absorver. boca de lobo

A meu ver: 1)  o sistema de captação capilar das galerias pluviais confirma ser insuficiente; as  “bocas de lobo” são distanciadas e nem sempre locadas nos pontos de confluência de desníveis de terreno. 2) Não é  levado em conta que quanto mais entradas houver para a galeria subterrânea, menor será o caudal em via pública e em consequência a sua força de carrear lixos e detritos; 3) com isto preserva-se então a capacidade de escoamento de toda a malha de captação pluvial. 4) Grandes extensões de terreno são impedidas de receber água por estarem cobertas pelas edificações e vias, vão desidratando aos poucos.

Uma solução simples:  1) esses canais subterrâneos (hoje também impermeáveis) se confeccionados em material poroso e aplicados por sobre camadas sucessivas de maior a menor granulação, técnica que permite uma suave absorção da água levada por esses dutos. 2) Teremos como resultado uma expressiva diminuição do volume carreado na distância e uma otimização do uso das águas que, naturalmente filtradas, irrigarão a vegetação superficial das avenidas, canteiros e praças, sem nenhum risco de caudal violento, de voçorocas. 3) Os ribeiros, córregos e rios ou lagos receptores finais das águas das chuvas acolherão um menor volume dela e o impacto no ambiente e na vida das pessoas se reduz.  prejuizos

Imaginando uma hipotética equação em que um duto com suficientes dimensões, escoa 10 litros de água por minuto – que no percurso de 2 metros deixe vazar por seus poros 1 litro de água – necessita somente de correr numa extensão de 20 metros para ao fim dele já nem conter mais água. Isto equivale a que numa distância de 200 metros ter-se-ia 100 litros de água absorvidos pelo solo anteriormente seco e impermeabilizado em sua superfície. Simples a consequente ilação e conclusão.

Numa visão de uma melhor efetividade desse sistema de galerias pluviais podem-se prever áreas como bolsões mais amplos somente alcançados quando o volume de vazão superasse um certo limiar; também construídos sobre base filtrante como as dos dutos e canais, como um “ladrão”.

Este meu pensamento identifica também que os custos iniciais, para realizar um plano assim, serão mais altos. No entanto, se houver normas rígidas definidas pelo competente organismo e respeitadas pela administração e nelas contemplasse por exemplo que  as “bocas de lobo” sejam abertas a cada distância definidas. Critérios técnicos devem ter em conta a média de precipitação num determinado período, ajustando para os máximos históricos ocasionais. As cidades em sua expansão terão de respeitar os leitos naturais dos mananciais e suas áreas de escape, depois observar uma relação da área coberta por edificações e vias públicas e uma extensão X de galerias pluviais, com as características aqui propostas.

Com essas atitudes e medidas, creio o nosso convivio com os fenomenos naturais não serão considerados tão danosos e ficaremos atentos para nos cuidar e lamentar os verdadeiros desastres. Hoje devemos lamentar mais o descaso, a ganância, a corrupção, o consumismo e o desperdício.

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Movimentos e variações

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rua Aurora - Pirinópolis GOOs movimentos que observamos em nossas vidas são extremamente curiosos. São algumas justificativas para o período de meses que estive afastado sem produzir nestas páginas. Não é um desistir, mas um intervalo nos meus movimentos. Comigo acontece de buscar atenção num projeto e então nele me debruço. O fervilhar em minha mente dessas ideias me levam a não me esquecer de outras sendas que também quero percorrer. Ai, acaba o tempo sendo pouco; a atenção em múltiplos focos, mesmo tendo energias suficientes. Verifico que a distância entre o querer (a motivação) e o ter de aprender, reaprender, ou descobrir alonga mais o tempo gasto em achegar a algum ponto desse caminhar. Há intentos que sempre acalentei em meu imaginário ou fantasias: sonhei escrever algumas coisas, temas variados. Não abandono a ideia de algo mais consistente – do que vi, vivi ou observei. Minha atividade clínica  me proporcionou um grande repositório de informações e vivências de pessoas confidentes. Quando me ponho a relembrar fatias ou retalhos dessas confidências ou relatos, identifico-as como únicas e especiais; todas retratando a alma humana. Um dia desses me debruçarei sobre isso. Ararinha e mangaA homeopatia veio enriquecer muito mais esse baú, talvez mesmo uma caixa de Pandora da mitologia em que continha todos os bens e virtudes, mas que só lhe restou a esperança. Porque na busca de compreender a pessoa como ser único e com sua forma própria de reagir, no anímico e no físico ou corpóreo, tem-se claros episódios e fatos reveladores ou transparentes dessa caixa de virtudes e vícios. A clínica que pacientemente conduzo abre caminhos para um conhecimento e informações por vezes guardadas sem segredos, mas mantidas em sombras (recônditos de almas). Quando me decidi e me dediquei no projeto dessa página Boa Saúde foi num intervalo entre um longo recesso e o retorno à atividade no Hospital Materno Infantil. Fiz buscas sobre temas e levantamentos em pesquisas respeitáveis para algum texto de conteúdo. Em final de 2013 saiu minha reforma ou aposentadoria (minguada). Começou assim outro momento, vi espaço e janelas de tempo que eu poderia também avançar e conquistar. fazenda-e-por-de-sol1.jpgPerguntei-me porque não fazer algo diferente e que na minha “capanga de desejos” sempre constava – um dia vou buscar aprender artes visuais. Sim apesar dos cabelos brancos sentei-me junto com alguns outros animados mais jovens, começando a brincar com cores e formas. Digo que valeu a pena ter essa coragem e decisão. Compensou o prazer de hoje já conseguir produzir algo. Isto ocupou o tempo, sem me esquecer do projeto Boa Saúde. Por enquanto vou pendurando nas minhas paredes.

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Matracas.

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Nestes dias que fiquei mais parado em casa, urdindo uma coisa ou outra, muitas cenas dos meus tempos de infância no interior repovoaram minha mente.

Corriam os anos 50, na denominada Ivapé, situada do lado goiano, às margens do Rio Araguaia. Muito pequena, com algumas poucas casas comerciais: a Casa Mineira do senhor Menezes, a loja do Dandico e o “bolicho” do Coló –  (pequena venda de secos e molhados onde os homens se reuniam mais para falar sobre nada de importante, comentar alguma graça, queixar-se da vida dura que todos ali levavam). Nada de calçamento na rodovia, que acabava sendo a única rua ao longo da qual se estendia o casario. Distanciando um do outro, porque todos tinham seus quintais, onde se cultivavam as fruteiras tropicais.

As lembranças que me ocorreram foram as dos hábitos e costumes de então. A quaresma, em toda ela, vivíamos como contritos. Os sinos tocavam numa cadência mais lânguida, como a enterro, era mais alongado o seu toque. A igreja única que havia era no outro lado do rio Araguaia.  Não tinha campanário, mas sua influência nas vidas e no quotidiano das pessoas era quase medieval. Os costumes impregnados do sentimento religioso quando não também do seu ritual da época.

Culturalmente ninguém questionava a obrigatoriedade da abstinência da carne duas vezes na semana e dos jejuns também semanais nesses quarenta dias, começados naquele das cinzas em que todos faziam questão de comparecer e ser assinalados com as cinzas em cruz na testa. “Memento homo quia pulvis est et in pulvere reverteris” dizia cerimoniosamente o oficiante, o coroinha segurando uma pequena bandeja com as cinzas. Estas uma vez passadas na testa não eram retiradas, mas respeitosamente mantidas, até que por si saíssem.

Os tempos também eram outros, tudo aquilo era impregnado de religiosidade e cada gesto tinha seu significado percebido. As imagens eram todas encobertas com um pano roxo, devendo toda atenção ser dirigida ao padecimento do Senhor Jesus. As matracas substituíam os sinos e sinetas. Só quem ouviu esse som lúgubre guarda de memória. Elas são de variadas formas, podendo ter outros feitios. Uma grossa e pesada tábua de madeira, que girada na perpendicular do braço, duas peças de ferro em marteladas, produziam um som soturno, seco. A outra matraca de minhas memórias era composta de um eixo contendo em seu extremo uma roda dentada, como uma engrenagem. Nela se acoplava outra peça que girava sobre esse eixo e uma lingueta de material mais fino e de certa flexibilidade passava rapidamente sobre os dentes da roda e produzia um som mais estridente e maçante. A função destes sons nas liturgias talvez fosse mesmo de voltar a incomodar e fazer pensar “… és pó e ao pó hás de tornar”!

Não bastasse essa atmosfera criada para a penitência e arrependimento, depois do entardecer só as frouxas luzes de lamparinas, velas e raros lampiões afugentavam as trevas e não o medo das poucas casas, nesse pacato povoado com sua quase centena de casas e casebres preguiçosamente estendidos ao longo da estrada de chão e algumas grotas causadas pelas chuvas e enxurradas. Na semana da Paixão até o céu parecia mais escuro. Os momentos principais eram a quinta-feira do lava-pés e a sexta-feira da visita ao Senhor Morto: com a imagem do Cristo ferido, sinalado de sangue, passávamos como em volta de um esquife, para beijar-lhe as chagas! Esses dias tinham uma carga maior de contrição e pesar.

Com toda naturalidade vivenciava e achava que assim mesmo devesse ser. Mesmo os castigos, reprimendas. Eram períodos de reclusão impostos, em semanas alternadas, a mim e Luiz, meu irmão logo acima de mim em idade. Tínhamos que dormir “para pensar nas coisas que havia feito”, sobre a tulha de mantimentos, num pequeno cômodo, no fundo da casa. Esses corretivos eram também para o arrependimento de diabrura que houvesse feito ou cogitado fazer. Afinal o diabo rondava e ameaçava em todos esses dias… Também até ao Senhor Jesus ele foi tentar!

Quando mais tarde em terras de Sevilha, já pai de meu filho mais velho, numa Semana da Paixão, com tempo ensolarado, por suas ruas vi a procissão do Senhor Morto. Brilhante, majestosa, tendo encapuçados com lanternas, uma banda tocando músicas fúnebres. Lá uma Verônica cantando  estendia seu pequeno lenço que a tradição diz ter enxugado piedosamente o rosto de Cristo, ficando nele impressa sua imagem. Foi nessa vez que reencontrei – talvez em suas origens – as matracas de minha infância. Hoje passados esses longos anos também vieram ocupar o entardecer de minhas memórias.

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Santo remédio!

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Crianças sempre nos surpreendem.

Período de férias, no final delas, Sofia de cinco anos recebe suas primas para passar alguns dias em sua casa. As primas são duas: Ana tem 9 anos, a menor Heloisa tem quatro anos. Ana, logo que chega se enturma e brinca mais com Isabel, a irmã de Sofia, ela também de nove anos. As primas chegaram trazidas pela tia Val.

A saudade que sentiam entre si logo fica patente pelos gritos, saudações e abraços, no imediato do encontro. Cada uma tem seu “gênio”, seu temperamento e evidentemente suas maniazinhas, pois são pequenas.

Conversaram, brincaram demais, a fantasia sempre em evidência nos folguedos, tanto com as bonecas como em canções e pequenos shows improvisados, sem nenhuma orientação nem roteiro, cada hora uma fazendo o papel de diretor. Soltam-se e são bem espontâneas. Adultos, quando não convidados como espectadores com o obrigatório aplauso compensador, não são bem recebidos. Provocam acanhamento e inibição nos pequenos astros. Estes momentos se perenizados em documentário, o que hoje é muito fácil de se fazer, serão curtidos em momentos familiares de enlevo e prazer saudoso.

A mãe de Ana e Heloisa não pode acompanhar, desta vez. Havia se comprometido com familiar que necessitava de cuidados dela. Este fato de terem vindo sem os pais é que proporcionou a observação do que agora narro.

Heloisa em outras ocasiões, mesmo querendo muito dormir em casa com as primas, nunca chegava a completar o desejo; desesperadamente clamava em prantos pela presença da mãe, o que era forçoso levá-la de volta para sua casa. Agora já não moram na mesma cidade que Sofia e Isabel sentia-se o prenúncio de um grande barulho.

Logo na hora do banho, este é coletivo e também no meio de muita algazarra. Como sempre a brincadeira prolongou-se ainda por mais um tempo e para dormir, quem diz que aceitaram separar-se. Deu-se um jeito com colchões colocados ao chão. Conversas e risos continuaram, até que Heloisa rapidamente corre para o quarto onde ficaram as malas e sem esconder nem fazer alarde, vem com um pequeno pano apertado ao seu colo.

– O que é isso Heloisa? – perguntou a mãe de Sofia quando a viu passar.

É o cheirinho da mamãe, para eu dormir.

Isabel e Sofia também questionaram aquela atitude da pequena Heloisa.

– Ela sempre usa esse paninho com o cheiro da mamãe para dormir – explicou Ana.

O fato é que depois da oração, puseram-se a dormir como anjos que são.

Durante todo o período que permaneceram aqui, repetia-se a mesma cena para adormecer.

Sofia, no dia seguinte que foram embora as primas, voltou ao seu hábito do – “deixa dormir só um pouquinho com você mamãe!” – E lá ia ela enrolar-se um pouco sob os lençóis com a mãe, depois ia para sua cama.  Na noite seguinte a mãe lembrou a ela que Heloisa bem menor que ela dormia tranquila sem a mãe.

– Me dá um cheirinho seu para eu levar comigo, então mamãe! –
disse num desafio a pequena.

A mãe tira a fronha de seu travesseiro e dá-lhe. Ela carrega-a toda feliz e vai deitar-se. Dormiu sem nenhuma queixa ou pedido. Depois nos dias seguintes sempre foi direto para sua cama com “o cheirinho da mamãe” . Não teve mais dificuldade para iniciar o sono.

Heloisa já sabe do remédio que ensinou para a prima dormir sem ser importuna. Santo remédio.

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Pode parecer estranho!

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Registros de uma vagem (III)

Depois do passeio à ilha de Paquetá, acompanhamos o grupo maior de pessoas que saía da Estação das Barcas. Já era noite, alcançamos a Assembléia Legislativa. Aguardamos um pouco e logo avistamos táxis que foram logo ocupados pelos que chegaram à frente. Abriu um sinal e  um outro foi parado por certo rapaz, sozinho que se postara uns metros à nossa frente. O carro parou, observei que houve uma conversa entre motorista e provável freguês. Nisso vejo que o taxi avança para frente vagarosamente; faço sinal que pare, este atende. Ainda de fora, indago ao motorista se ele aceitaria levar-nos até ao hotel. Concorda e logo que entramos forneço o endereço. Aguardei avançarmos um pouco pela Rua da Assembléia e ainda antes de alcançarmos a Av. Rio Branco,  eu estava um tanto intrigado de ele haver recusado um passageiro, já perguntei:

– Observei que o senhor não aceitou fazer a corrida para aquele rapaz.

– Ora, meu senhor, eu estou na praça há muitos anos e aprendi a tomar minhas cautelas. Aquele rapaz queria que eu o trouxesse até aqui na Avenida Rio Branco. Ele veio também com um jeito e tom de voz … Eu nada tenho contra ninguém, nem mesmo opino sobre o que queiram fazer da vida e na vida, mas não aceito que interfiram comigo e no que faço.

Logo pediu desculpas pela presença de minha senhora e as filhas ainda pequenas e completou sua explicação da recusa acrescentando descrição de situações por ele já vividas.

– Muitos desses rapazes ou garotos são molestos, quando não perigosos. Assentam-se sempre no banco da frente, logo passam a mão sobre o apoio do banco do motorista e iniciam uma conversa melosa, que não me agrada. Eu quando noto isso mando que retire o braço e se não sou atendido, paro e encerro ali, em qualquer ponto que esteja.

Eu achei o senhor taxista seguro no que dizia e também não me pareceu preconceituoso. Justificou sua postura.

Pensei a cena  e me vi rindo de mim mesmo, pois com muita frequência, estando no banco da frente, apoio o braço esquerdo sobre o espaldar do motorista, para me virar para trás e ver como as meninas estão ou para conversar alguma coisa. Ali ainda não havia feito isso e nem o fiz mais e não corremos o risco de ser deixados a meio do trajeto!

Completou ainda sua argumentação exemplificando situações em que pessoas mal intencionadas usam o artificio de dar endereços equivocados, porque os nomes de ruas se repetem em diferentes bairros. Um deles informou a rua dizendo que seria em Vila Isabel, ele discutiu que lá não havia tal rua, mas acedeu e continuou. Chegando em Vila Isabel em via de nome parecido ao que dissera, já não era mais lá e sim no Morro da Mangueira. Lá foram para Mangueira, era bem noite. O perigo não foi só esse, o lugar não era nada seguro e a pessoa recusou-se a pagar. Ele não questionou muito e tratou logo de voltar, alegre até por nada de pior ter ocorrido com ele. Até chegarmos ao hotel repassou uma série de recomendações para termos quando andando pelas ruas da cidade.

Já no dia seguinte, por evitar estar em locais com grande aglomeração, providencialmente deixamos a praia de Copacabana para uma segunda-feira. Como havia feito anteriormente com os demais taxistas, iniciei conversa com este senhor Antônio. Não usava bigodes, não tinha sotaque carregado, mais parecia carioca que outros, no entanto era natural da Beira Alta, disse o nome da aldeia onde nasceu, que não me recordo. Veio com os pais ainda quando criança para o Brasil.

– Sou feliz por ter vindo, nunca lá voltei. Aqui constitui minha família, tenho meus filhos brasileiros, uma é química industrial e o rapaz está bem em seu negócio.

– Mas porque o senhor não quis mais retornar ao seu país?

– Hoje nem português eu sou. Fiz aqui o serviço militar, para isso naturalizei-me brasileiro, tenho aqui todos os direitos.

– O senhor pode, então, ter a dupla nacionalidade e pegar um passaporte que lhe dê algumas regalias de viagem na Europa, disse eu provocando a continuidade da conversa.

– Os meus filhos têm esse direito sim, mas eu não porque ao naturalizar-me brasileiro, neguei o direito de ser português. Eu o fiz por uma questão de buscar melhor oportunidade aqui no Brasil. Aqui estou bem, isto já nem me preocupa. Estive em Brasília por esta razão de cidadania e passaporte, não há recurso.

Enquanto ele alongava nalguma descrição sobre o bairro de Copacabana descrevendo algumas características fiquei pensando em como a vida dá voltas, tantos indivíduos são forçados a deixar suas terras por diferentes motivos, este senhor na busca de um sonho seu, para ter as mesmas oportunidades e direitos que os cidadãos brasileiros, infligiu a si mesmo um autoexílio.

Já chegamos ao Posto 9, próximo ao Forte de Copacabana, descemos do Taxi e aproveitamos para estar à praia.

TAXIFindo estes relatos extraídos das conversas com estes profissionais, justificando que os fiz por perceber neles diferentes personalidades e histórias, todos exercendo com simpatia e honestidade o serviço de transporte seguro ao cidadão e turista. Ainda além de cicerones, também folheiam páginas de suas vidas escritas com o seu trabalho. Meu respeito e agradecimento a todos esses senhores da Comissão de Frente.

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Ilha de Paquetá

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Registros de uma viagem II

IMG_0021Na charmosa Baia da Guanabara há uma sossegada ilha, a de Paquetá. Numa rápida busca histórica fiquei sabendo que teve relevância na ocupação francesa e depois na retomada pelas tropas portuguesas. Os franceses se uniram aos Tamoios de que hoje tem o registro do toponímico na Ilha, a praia dos Tamoios. As denominações locais estão relacionadas a outras figuras históricas do período da regência e império – Praia de José Bonifácio, Solar D’El Rei, como exemplos.

D. João VI quando veio com toda a família real para o Brasil, tinha sua casa de descanso na sossegada ilha – Rua Príncipe Regente. Mesmo que as denominações das ruas não sejam as mesmas de seu início, tem interesse sua referência histórica. Diz-se que o Príncipe Regente chamou-a de Ilha dos Amores. Um romance “A Moreninha” de 1843 deu o nome a uma das praias.

A natureza curiosamente não foi muito pródiga com a ilha, pois não foi agraciada com uma fonte ou nascente. A água que lhe deu foi só a do mar. Talvez esta tenha sido a razão pela qual, mesmo sendo habitada de tão longa data, tenha permanecido pequena e pacata. Nem mesmo as duas iniciais sesmarias da ilha nunca conseguiram pujança.

Uma travessia de barcaça é o meio mais comum de chegar-se a esta ilha e poder desfrutar de suas belezas e bucólica paz. Desembarcando logo se notam algumas diferenças: as charretes puxadas por cavalos e um desagradável e destacado cheiro de urina.IMG_0022

O poder local, de sempre, proíbe a circulação de veículos motorizados na ilha, o que é bom. Também manda a norma que aos cavalos das charretes seja aplicada uma grande bolsa  logo abaixo à cauda, rabo ou outro nome mais simples e direto. As bolotas de fezes então, quando o animal ergue o dito rabo, caem direto nessa bolsa, livrando assim a via pública desse resíduo. Só é pena que a norma não estabeleça procedimento ou cuidado semelhante para o outro produto de excreção do animal e fonte de importante poluição: a urina do animal. Nem mesmo a lavagem efetuada na volta do dia na praça de desembarque soluciona ou elimina a catinga.

Fico imaginando, e em fantasia vendo, esses animais submetidos a uma sondagem vesical e respectiva bolsa coletora de urinas. Outra imagem e experiência menos traumática que visualizo:  estes animais em seu serviço diário com um tubo ou metade dele e de bom diâmetro,  ajustado ali próximo ao órgão poluidor no caso. Tubo esse contendo serragem ou areia para embeber o liquido eliminado. Ambos resíduos, tanto o sólido como o líquido poderia ser usado para produzir bom adubo. Por razão óbvia a coleta da urina fica mais facilitada em éguas, adaptando-se as mesmas bolsas de coleta de excrementos também para a urina. A sugestão é deixar a exclusividade das charretes para estas, se provado que são essas mais higiênicas e menos poluidoras.

IMG_1264Outro meio de transporte vai exigir o esforço motor do condutor, são os triciclos. Com qualquer desses pode-se percorrer a ilha toda em suas ruas de saibro.

Saímos da Ilha de Paquetá já à noitinha. Tivemos a oportunidade de apreciar o por do sol na ilha e saindo ver o belo quadro da ilha iluminada e os seus reflexos na orla.

Já cansados e adiantadas horas da noite descemos na Praça XV, estação das Barcas e logo procuramos encontrar taxi. Sem ficar de bobeira esperando num ponto, acompanhamos o grosso da turba que se dirigia pelas ruas, logo em frente à assembleia pegamos um taxi que nos levou até ao hotel. Pelo inusitado que ocorreu, deixo a narrativa desse episódio para o próximo post.

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Um doce rápido e fácil.

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banana roxa 2Em um outro post comentei sobre um procedimento para uma melhor conservação da banana. Mesmo assim, ela pode ainda ficar muito maduras e ainda boas, apropriadas para um consumo “in natura”. Todavia podem já nao apresentar um aspecto tão bom, de uma fruta bem firme. O que fazer?
Eis uma receita simples; em poucos minutos terá uma sobremesa excelente!Irá necessitar de umas poucas bananas, até uma meia dúzia, não mais.
Identifique primeiro aquelas bananas que já apresentam muitas pintinhas enegrecidas, mas ainda de casca íntegras, separe-as e corte em rodelas mais ou menos finas. A prata, a nanica ou outra variedade mais adocicada são as mais apropriadas a meu ver.
Em uma caçarola coloque duas colheres de sopa de açúcar cristal para uma banana nanica, aquela prata, sendo menor, irá corresponder a uma colher. Leve ao fogo baixo e aguarde, pode ir mexendo lentamente até aquele ponto em que adquira a coloração alourada do melado.
Vai observar que mesmo não estando todo ele derretido é hora de acrescentar a porção de bananas já cortadas. Acrescente-as na vasilha que tem o açúcar caramelando.  Irá observar a formação de blocos de cristais, deixe a panela sempre em fogo mais lento, mexendo para acompanhar o derretimento desses cristais. A coloração caramelo irá impregnar a banana, esta irá desfazer-se parcialmente, formando uma calda consistente. Nunca acrescente água. Se for de seu gosto acrescente junto com o açucar cristal um pedacinho de canela em casca.banana3
Ainda quente sirva com uma porçao de sorvete. Use-o como entender, sendo pouca porção acredito que não precisará ser guardado.

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Registros de uma viagem

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TAXIRegistros de uma viagem. (I)

Chegados ao Rio de Janeiro neste princípio de Ano 2014, descemos no Aeroporto Santos Dumont. Ainda um pouco apreensivos com o ameaçador clima de insegurança, logo eu notei que esse temor deixou-me a mim e aos meus, mais prosas. O primeiro taxista não deve ter ficado feliz de fazer um serviço com duração de uns dez minutos até ao hotel. Nada falou e pouco respondia ao que nos atrevemos a perguntar: tempo, fluxo de pessoas, elogios ao Aterro do Flamengo, a admiração das belezas num dia de céu transparente e com muito sol. Para ele devem ter soado como prosáico e enfadonho. Nas muitas vezes que utilizamos os serviços de taxi não foi essa a figura que mais encontramos. Na verdade a simpatia e o bom trato prevaleceram.
Depois de um rápido contato com a cidade e sua gente verifica-se que o seu clima humano é o de sempre, cordial. A insegurança corresponde àquela geral do país. Aos poucos a gente vai se desarmando. Muita importância nesse desarmamento e baixar da tensão têm os taxistas. Estes são os membros da comissão de frente, na terra do samba.  Destaco aqui alguns desses personagens que colaboraram para nosso bom descanso no Rio.

Do hotel até à praia da Urca levou-nos o senhor Miguel, elucidou-nos parte da história do bairro, da sua tranquilidade, comentou do seu tempo na Faculdade de Pesquisa Mineral (UFRJ). Notava-se nele o entusiasmo do jovem estudante que depois logo trabalhou muitos anos na Petrobras. Passou por alguns comentários sobre o grande potencial nacional e o caminho de sua exploração. Descreveu alguns imóveis do “Rei” RC; o abandono da antiga TV Tupy (velho Cassino da Urca), porém soube criar um ponto alto em sua narrativa.

Passávamos por uma larga avenida, frente aos prédios da UFRJ quando ele disse: Vêm aqueles ónibus enfileirados ali? – ficou a pergunta em suspenso.

Seguiu a conversa. Já sabendo que eu sou médico, elogiou os avanços e sucessos da medicina, a dedicação e generosidade nossa de discipulos de Hipócrates.

Parou próximo a uma curva e retomando a narrativa interrompida, disse: Há um ano um jovem saindo de moto por esta curva em alta velocidade acabou batendo violentamente num ônibus parado naquele lugar que mostrei. Foi muito grave.

Observei em seu semblante emoção e saiu-me a pergunta simples: Era seu filho?

– Não, disse ele, hoje tenho no peito um coração de vinte e um anos, eu fui o receptor do coração desse jovem. Há um ano bate aqui no meu peito.

Olhando em seu semblante feliz e emocionado, cumprimentei-o pelo sucesso, pela gratidão que mostrava ao jovem doador. Descemos na praça da praia vermelha, pedi o seu cartão. IMG_0036

No dia seguinte decidimos pegar o trenzinho para o corcovado. O condutor do taxi que paramos para chegar até Cosme Velho, trajava boa roupa, engravatado e com seu paletó no encosto do banco. Um senhor de boas feições, boas falas, com acento não carioca.

Pelo estereótipo do bigode, perguntei: – Por acaso o senhor é da boa terrinha, ao lado do Tejo?

– Não, eu sou da República do Ceará, respondeu ele com bom espírito.

Entabulamos logo uma conversa fácil. Contou ter vindo em criança para o Rio, ter trabalhado muito. Ganhou dinheiro e usou para bem viver. Consumiu parte do ganho e muito do seu tempo com gafieira e boa vida.

Voltou ao seu Ceará uma única vez, bem abastado, nem se recorda qual o nome da moeda da época. Dinheiro suficiente para comprar uma casa ou um apartamento.

IMG_1094Mora no que é seu, tem seu carro para trabalhar quando quer e com prazer. Fez um investimento num imóvel que aluga em Santa Tereza e pensa conseguir repetir isso, mesmo com o aumento do preço do imóvel na cidade.
– Trabalho para quem quer não falta, mesmo que os taxis estejam fazendo filas esperando por passageiros! – disse o nosso condutor parando para descermos frente à estatua do Eng. João Teixeira Soares, na estação Cosme Velho para o bondinho do Corcovado.

Guardei na memória este simpático senhor, bom pé de valsa e boa vida saído pobre de Crateús no Ceará, não dispensa o trabalho e o faz com ar feliz!

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justificando

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20140308_164623“Filho meu, não te esqueças dos meus ensinos e o teu coração guarde  os meus mandamentos; porque eles aumentarão o teus dias e te acrescentarão anos de vida e paz.”  Prov 3,1-2.
  “Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal; será isto saúde para o teu corpo e refrigério, para os teus ossos.”  Prov 3, 7-8.

Quando me coloquei o desafio de trazer a público ledor alguma coisa do que me parecesse importante, com uma meta de orientar (coisa de pessoa velha), defini uma abrangência grande de interesses. Isto há um ano e pouco atrás estando em gozo de licenças prêmios acumuladas. Aguardava, então,  a esperada aposentadoria no serviço de saúde do Estado. Terminaram as licenças e tive que reassumir a atividade num compasso de espera para a concessão do meu direito.
Finalmente agora em Janeiro recebi o meu primeiro contra-cheque em uma nova categoria funcional – “Quadro inativo” !

lareiraLancei ao alto no Ano Novo o meu crachá funcional, que veio cair sobre o lustre  e até hoje lá está!
Passa-se boa parte da vida num trabalho árduo, aguardando sempre um reconhecimento e compensação financeira. Planos de carreira e salários, sempre prometidos por ocupantes transitórios do poder e comando, mesmo aqueles que nele se revesam. Passa-se o tempo e tem o inativo que acostumar-se com alguma redução significativa de seus ganhos.
Antes de sair o esperado edital alimentava a ilusão de que o prometido plano chegaria em tempo. Nada aconteceu, nada deverá acontecer por esses dias mais próximos.

Este estado de ânimo e um período que de agora em diante dedicarei a um maior convívio com os meus parentes e amigos mais chegados, me fizeram distanciar o contato com vocês.

A vaidade de querer ombrear alguma tarefa me manterá por aqui consciente todavia das minhas limitações, sem todavia sofrer por tê-las.
O objetivo destas páginas é o poder servir a alguém, sem a contra-partida do ganho!
Tentarei atualizar minhas buscas e sínteses e dentro do possivel trazer aqui, tendo já como paga “saúde para o meu corpo e refrigério, para os meus ossos”, da citação bíblica.

Que o Senhor os guarde a todos e lhes conceda Paz e Saúde!

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Uma tarde com o poeta.

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Ah! se todos fossem iguais a você!

Coimbra, transcorria o ano de 1968. Estudantes brasileiros, em virtude de um acordo cultural firmado entre o Brasil e Portugal, estávamos presentes nas três universidades portuguesas, com uma predominância na velha Coimbra. Provindos dos quatro cantos do Brasil, a grande maioria sem vinculo familiar com a terra lusitana, dispersos nos vários cursos e o maior número na Faculdade de Medicina. Eu havia chegado em 1967 outros poucos no ano anterior.

Desse lado de cá do Atlântico o Brasil passara recentemente por golpe militar. A pasta da Educação comandada pelo também militar Jarbas Passarinho não tinha solução para a crônica e crescente falta de vagas nas universidades. O pano de fundo de insatisfação da sociedade que questionava o regime militar, antevendo e pressentindo seus atos repressivos só assinalo aqui, para um contexto temporal.

Noutro lado, Portugal debatia-se na guerra de dominação de suas colônias. Sua juventude ia se extinguindo ou mutilando-se em terras de África. O salazarismo continuado por Marcelo Caetano se travestia com algum ar de modernidade;  nas cidades e aldeias o que mais se via eram mulheres novas e idosas enlutadas, de lenços e xailes negros: as “viúvas”  de noivos, maridos e filhos mortos em Angola, Guiné e Moçambique. Os programas de televisão, estatal (RTP) correspondiam aos horários das três principais refeições, alongando-se pela noite até pelas 22 horas ou pouco mais. Bancos e comércio encerravam para o almoço. Ainda nesses hábitos as moças raramente trajavam outra coisa que não fossem vestidos ou saias. Após algum tempo já se viam as calças jeans e no verão alguma minissaia. Nos quartos de aluguel para estudantes ou nas pensões banhos frios eram liberados já os banhos quentes eram limitados, se mais que dois os valores seriam outros!

Os mais de 300 jovens universitários brasileiros participando ativamente da vida acadêmica, frequentando a única cantina universitária e seu convívio com as instalações da Associação Acadêmica, além das adjacências da Praça da República, Av. Ferreira Borges e a Baixa de Coimbra, essa presença mexeu e muito com os hábitos e rotinas da cidade. Alguns atos de desvios,  certo que ocorreram e foram motivo de escândalo.

Já os brasileiros haviam organizado, ordeiramente, algumas festas como Passagem de ano e Carnaval. No ambiente acadêmico e das “repúblicas” estávamos bem inseridos e sem desentendimentos. Mas, no imaginário geral e no atavismo de alguns costumes e preconceitos, os modos e maneiras dos brasileiros começaram a incomodar. Por outro lado, nós passamos a sentir incomodados com comentários em pequenas notícias, secção de cartas de jornais, com ilações e supostos atos, não individualizados, tidos como perturbadores dos bons modos. Foi ai então que os mais atentos ao contexto da vida acadêmica e urbana decidiram fazer algo para diminuir essa dissonância. Conseguimos sensibilizar o adido cultural –  à época o diplomata Otto Lara Rezende – que compareceu em Coimbra e no Café “A Brasileira,”  à rua Ferreira Borges, expusemos  a ele os fatos. Lembro-me que entre nós estava a “tia” do colega Jéssie, pessoa influente, por intermédio de quem foi possível esse encontro, com a autoridade diplomática. Fruto disso: os noticiários locais fizeram respeitosas notas sobre o fato, o diplomata sensibilizou-se prometendo apoio à nossa presença naquela Universidade, exaltou os aspectos do convênio e o quanto nós próprios, estudando ali, tínhamos a ganhar para nossas vidas.

Outro desdobramento advindo dai – e foi o que mais ajudou – logo uns dois meses depois, compareceu na Associação Acadêmica nada mais nada menos que Vinicius de Moraes e Toquinho, que nos brindaram a todos cantando e declamando sua obra, ali mesmo nos bancos do Convívio da Acadêmica. Hoje reverencio essa imagem sua, sem tietagem, sem cachê; pura solidariedade por seus patrícios, que distantes necessitavam de apoio e ele com seu nome e arte esteve ali por mais de 4 horas num espetáculo que só nos custou o pouco Uísque que consumiu e alguma água mineral. Foi para mim e para muitos brasileiros e portugueses um evento inesquecível.

Pelos conselhos do samba da bênção, pelos que não respeitaram a regra 3,  Muito obrigado poeta. Ah se todos fossem iguais a você! Pela surreal “Casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada.”… Pelas galantes juras de Soneto da fidelidade! Mais uma vez obrigado!

No seu centenário compartilho aqui a lembrança desse ato de generosidade e amizade pelos jovens sonhadores que éramos; melhor: ainda somos.

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Ponto de vista

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O que tem acontecido nesses dias no Brasil tem suscitado opiniões e análises diversas e discordantes. Claro que direito de opinião e poder manifestá-la é garantia constitucional e um direito individual contido logo sob o título: Dos Direitos e Garantias Fundamentais. Na Carta da Nação esses “direitos são garantidos, sem distinção de qualquer natureza”  – IV – “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”; e no – XVI – “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

O fato é que as pessoas têm saído às ruas. São fundamentalmente jovens, mas não só, mesmo tantos, como eu, não o tendo feito, não estamos alheios ao que motiva este movimento. Vejo que a motivação inicialmente alegada como o reajuste de preços em passagens de transporte público, de imediato afloram outras razões subjacentes do descontentamento. Fica evidente que não é uma revolta, mas um grande grito compartilhado dizendo: Oi, não aguentamos mais.

Não aguentamos mais esse modelo, não aguentamos mais as estruturas desse modelo, os que o executam, os que as organizam ou legislam e julgam. A proteção ao lucro, a ganância, a corrupção modelar que grassa em todos os campos.

Desde o começo não foram os pequenos aumentos, mas o entendimento de que o direito à chamada mobilidade, sempre prioriza o individual e não o coletivo, as ruas são para os carros, os “coletivos” são tratados como se fosse um correspondente da categoria gramatical: uma manada! O público é transferido ao privado em concessões, com todas as garantias de lucro, e os interesses protegidos, num formato de legalidade não discutida. Basta ver que o subsídio às empresas que detêm o “direito de explorar” é feito no quantitativo transportado. Não importa como e em que condições. Pessoas não são tratadas como tais; animais levados em gaiolas para o abate são transportados com menor desconforto.

Teria de haver o contraponto ao subsídio dos cofres públicos por passagem a exigência de um limite máximo de pessoas por ônibus ou vagão. Isto sem tolerância de prazo. A disponibilidade haveria de ser imediata. Há como empregar a informática para conhecimento instantâneo de demanda e destinos.

As vias e as áreas urbanas não sendo pensadas para o coletivo, os de menor poder ou posse necessitam deslocar-se cada vez de maiores distâncias para o trabalho ou demanda dos serviços que não são oferecidos em seus locais ou bairros. Num simples exercício numérico: as pessoas espremidas num vagão ou ônibus poderiam utilizar outro igual e ambos ficariam repletos em pé e assentados, mas guardar-se-ia um mínimo e decente espaço entre si. Hoje nem as sardinhas são tão espremidas na lata! É o mínimo respeito que deve o administrador público exigir daqueles a quem entrega ou concede o direito não de “explorar”, mas de prestar um serviço e obter seu lucro.

Tivesse sido tão só pelo aumento de poucos centavos nas passagens o movimento teria tido razão suficiente para o grito que vinha de muito sufocado e pipocando raramente numa ou noutra ação isolada de ira explosiva. Todos esses usuários têm obrigações e horários e dispendem muita energia, tempo, paciência e tolerância, eles estão dizendo um basta! Somos gente, pagamos impostos, o que estão fazendo conosco? O momento é de fato o mais oportuno, as novas arenas esportivas foram expostas, propagadas e visitadas. O investimento grande vem dos cofres do Tesouro. Houve equivoco nas prioridades dos gastos. O país precisa sim de infraestrutura primeiramente em outras áreas, depois o suntuoso estádio.  É lembrar o “pão e circo” dos imperadores romanos.

No meio dos que pegam seu cartaz sem máscara (sem cara escondida) como o texto constitucional garante, aportam poucos outros – mascarados, baderneiros e praticantes de arrastões e atos de violência – o que em nada muda o sentido e a razão do grito. É por direitos plenos de cidadão que o Brasil saiu às ruas!

Políticos e algum palpiteiro oportunista dizem: – é sem rumo, sem liderança! São jovens estudantes, é compreensível seu arroubo! Não vêm que: não é exclusivo deles, sim do povo; que  são esses partidos, esses políticos, esses interesses é que estão sendo excluídos do ideário dessa massa. Desde o fim do regime de exceção se esperou tolerantemente por essas soluções  que não vieram. Partidos promissores se substituem e apesar de pequenos avanços a decepção e o desengano continuam, assim como continuam a corrupção, o fisiologismo, o jogo de interesses e o acasalamento do poder político com o econômico e financeiro. Precisamos estar atentos para saber identificar manipuladores de qualquer matiz partidário e os verdadeiros leitores desses sinais todos, o povo espera que eles surjam verdadeiros nas várias estruturas da nossa forte democracia.

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Hipocrático

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Encontrei um texto mais antigo do Juramento de Hipócrates, do qual fiz uma livre tradução e trago aqui com alguns comentários.

Antes de mais Esculápio na mitologia grega tido como filho de Apolo era a divindade para a medicina; Higias e Panacea as filhas de Esculápio suas auxiliares. Temos palavras e conceitos advindos dessas auxiliares de Esculápio: higiene, higidez,  hígido, – (limpeza, saúde, saudável) e panacéia (o que cura qualquer mal).

Nota-se o sentimento de respeito e doação, entrega que emana de todo o texto: o respeito e agradecimento às divindades; o respeito filial ao mestre da arte de curar; o firme propósito de tão só utilizar o conhecimento para o bem e proteção à vida; ter um bom trato com todos, não indicar, nem orientar ninguém ao uso de venenos (drogas); a decisão de não tirar vantagem do conhecimento e reconhecimento social para seu prazer ou deleite tanto com livres ou escravos; a guarda do sigilo daquilo que não deva ser divulgado.

Realmente é conciso, harmonioso o texto antigo, mais direto. Serve de reflexão para médicos e não médicos.  Ajuda também à compreensão do significado social dessa profissão.

Eu, discípulo nessa arte, quero concluir meus dias com a verdade do que diz o texto  “seja-me concedido gozar felizmente minha vida e minha profissão,  seja sempre honrado entre os homens”.

“JURAMENTO:

Juro por Apolo médico e por Esculápio: por Higias, Panacea e todos os deuses e deusas a quem chamo por testemunho a observância deste voto, que me obrigo a cumprir oferecendo com todas minhas forças e toda minha vontade. Dedicarei a meu mestre de medicina respeito igual aos autores de meus dias, repartindo com eles meu ganho e socorrendo-os na necessidade; tratarei a seus filhos como meus irmãos, a meus mestres e aos discípulos que me venham me acompanhar dentro dos princípios e juramento que determina a lei médica e a ninguém mais.

Orientarei o regime dos doentes do modo que lhes seja mais proveitoso  dentro das minhas possibilidades e meu conhecimento, evitando todo o mal e injustiça.

Não me aventurarei a pretensões que impliquem na prescrição de venenos, nem persuadirei a ninguém com sugestões desta espécie.

Abster-me-ei igualmente de ministrar às mulheres grávidas pesários abortivos Conduzirei minha vida e exercerei minha profissão com inocência e pureza. Não praticarei o corte deixando essa operação e outras aos especialistas que comumente se dedicam a praticá-la.

Quando entrar em uma casa, não terei outro propósito que o bem e a saúde dos enfermos, cuidando muito de não cometer intencionalmente faltas injuriosas ou ações corruptoras e evitando principalmente a sedução das mulheres jovens, tanto livres como escravas.

Guardarei sigilo do que venha ouvir e ver na sociedade e que não seja preciso divulgar, seja ou não no que diz respeito a minha profissão, entendendo ser discreto como um dever em tais casos.

Observando eu com fidelidade meu juramento, seja-me concedido gozar felizmente minha vida e minha profissão,  seja sempre honrado entre os homens: Se o quebro e venha a ser perjuro, caia sobre mim a desgraça.”

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Posta restante

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Já trouxe aqui texto de Moacyr Scliar, num conto. Hoje refletindo, com alguma pausa encontrei novamente no autor a narrativa de um relato sensível e de boa observação de almas e comportamentos.

O escritor também foi professor de medicina. Dai, talvez, deriva um pouco a força de seu estilo e sua capacidade de captar o que não é demonstrado. O médico não está treinado somente para ouvir, solicitar exames, explorar sinais indiretos de sofrimento, palpar, mas, sobretudo: observar desde a fisionomia, o modo o gestual e atitudes. Vejam como isto pode ser identificado neste pequeno conto que transcrevo, extraído do livro Contos reunidos, editado pela Companhia das Letras, SP, em 1995.

POSTA RESTANTE

Certo dia, levantei-me, lavei-me, penteei-me, vesti-me, tomei café e fui à casa de nossa vizinha, a viúva Paulina.

A viúva Paulina era uma senhora de idade, muito boazinha. Por isso, e também porque era inválida (andava de cadeira de rodas), eu costumava prestar-lhe pequenos favores, tais como: cortar a grama de seu jardim, levar seu cão Pinóquio a passear e colocar suas cartas no correio.

Eram muitas, essas cartas. A viúva Paulina era assinante de uma publicação que relacionava missivistas do mundo inteiro. Assim, ela escrevia para países tão remotos quanto Sri Lanka, Japão e Tunísia. Cartas e mais cartas; gastava boa parte de seu modesto rendimento em selos. Com escasso resultado; só ocasionalmente recebia uma resposta. Mas isso não a desanimava; pelo contrário, escrevia cada vez mais. Nisso, segundo dizia, estava sendo fiel à memória do marido, um médico humanitário que morrera sonhando com um mundo unido. Legara à viúva Paulina uma mensagem de amor. E pouca coisa mais: uns livros velhos, um carro antigo, que ela vendera, um reduzido pecúlio. É que a maioria dos seus pacientes, gente pobre, não lhe pagava; um fato que a viúva não deixava de lembrar com emoção. Entre esses clientes estavam meus pais. De modo que na minha ajuda à velha senhora, havia também um componente de gratidão.

Passei, pois, na casa da viúva Paulina. Ela me esperava no jardim, sorrindo como de costume. Perguntou-me como ia no colégio, deu-me um pedaço de cuca que ela mesma tinha feito. E entregou-me uma carta. Uma só? – estranhei. É, uma só, ela respondeu, me olhando fixo. Peguei a carta e o dinheiro, despedi-me e fui embora.

Como de costume, dirigi-me para o parque. Joguei fora a cuca – estava horrível –, sentei-me num banco e, como de costume, abri a carta. Em geral era uma leitura que me divertia.

Nesse dia, porém, tive uma surpresa.

A carta era dirigida a mim. No envelope estava um nome qualquer, e um endereço nos Estados Unidos, mas a carta, a carta mesma, começava com um Prezado Chico. Chico sou eu. É o meu apelido.

E continuava a viúva.  Nunca esperei uma coisa dessas de você, Chico. Você por quem eu tinha tanta estima.

O caso é que descobriu tudo: que eu não botava as cartas no correio, que embolsava o dinheiro dos selos. O novo agente postal, que acontecia ser seu parente, lhe contara que eu nem ia à agencia. E concluía a viúva. Pensar que confiei em você. Pensar que eu lhe entregara minhas escassas economias, quando podia ter investido esse dinheiro. Podia ter comprado dólares, Chico.

Amassei a carta, joguei-a fora. Eu lembraria disso, quando chegasse a época de meus primeiros investimentos.

Moacyr Scliar   Moacyr Scliar

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Janelas quebradas!

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Acredito que toda e qualquer sociedade se preocupa hoje com o avanço do crime, ferindo a integridade individual ou a própria vida. Os atos de violência são mesmo preocupantes. Se formos refletir mais no tema chegaremos a uma conclusão: grande parte da humanidade tem se pervertido! Inquietamo-nos em indagar como serão os dias das próximas gerações. Os crimes tomam cada vez mais as tintas de crueldade e os criminosos demonstram uma cabal evidência de “desalmados”, de inumanos. A alma não é só aquela parte de nós que transforma o aglomerado de matéria em vivente, mas também lhe confere a essência da Pessoa, distinguindo-nos dos animais, tornando-nos humanos. Confere-nos intelecto e sentimentos, torna-nos além de gregários – seres sociais.

Há que buscar razões e explicações. Não serão leis brandas e não aplicadas que farão elementos, que não encontraram um bom caminho, desistirem e retornarem a um convívio harmônico em sociedade. Também não é a pobreza a porta aberta para uma marginalidade social. O crime se organiza, acumula fortunas, estrutura-se como um poder paralelo desafiando e em muitos sentidos levando vantagem sobre o Estado. Vejamos as louváveis ações de combate ao crime levadas com certo êxito na Cidade Maravilhosa. O Estado entendeu que deveria estar presente nos morros, não só com as denominadas Unidades Pacificadoras. Hoje ainda não passaram mil noites e o que vemos? À plena luz do dia, com registro de sistemas de imagens de segurança o crime mudando de endereço daquela cidade, buscando outras, interiorizando-se. O uso e o tráfico de drogas é o que alimenta e arma este poder. O retorno a um convívio sem tanto medo em sociedade, passa por vencer estes dois obstáculos. Em grandes e pequenas cidades, aglomerados urbanos Pessoas se transformam em farrapos humanos e são capazes de atrocidades revoltantes. Basta relembrar noticiários recentes: moradores de rua (em função do crack) se matam e são mortos por um nada.

A banalização da violência em sua última consequência permeia um grande contingente da população: São Paulo, jovem caminha do ponto de ônibus para sua casa; ao entrar nos portões de seu condomínio é assaltado. O individuo, também um jovem, exige que lhe entregue o celular. Pelo próprio susto do momento, hesita, mas logo entrega e sem esboçar qualquer reação é alvejado por um tiro na cabeça e morre.  Outra notícia: Dentista é queimada viva  por ladrões em SP. “A dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza foi queimada viva dentro de sua casa por um assaltante em São Paulo. O crime bárbaro foi cometido pelo fato da dentista ter somente R$ 30,00 em sua conta bancária”. Eis o primeiro parágrafo síntese do relato. Em seu consultório, onde ocorreu o crime, nada tinha! Crianças esquartejadas em seguida de violência sexual! Encerro com os exemplos por não querer transformar o assunto em crônica policial ou do crime.

janela quebradaHá uma teoria Brocken Windows que pode, a meu ver, trazer um pouco de luz ou explicação desses tão graves desvios de conduta. Trago aqui uma síntese dela. Levantada primeiramente por Philip Zimbardo em 1969. Colocou ele um carro velho e enguiçado no Bronx, um outro em igual estado de conservação em Palo Alto, Califórnia. Características sociais de Bronx – bairro habitado por afrodescendentes, latinos, porto riquenhos, albaneses; em suma – os pobres, com gangues locais. Palo Alto – localizado perto de mansões hollywoodianas, os ricos e de bem. Ambos os carros, não traziam suas placas, identificando evidente abandono. O que aconteceu? Em 10 minutos depois de “abandonado” o carro do Bronx começou a ser depenado. Alguns dos “vândalos” eram pessoas de bom traje e de pele clara. Em 24 horas  nada mais havia no carro que pudesse ter algum valor; seguiu-se uma destruição aleatória, os vidros foram quebrados e as crianças brincavam nele.  Em Palo Alto durante uma semana o carro não foi tocado. Então o pesquisador, com uma marreta deu alguns golpes no carro. Não decorreram horas e logo os passantes acabaram por destruí-lo. Mais uma vez, eram os “vândalos” bem vestidos e brancos na grande maioria dos que assim agiram.

No primeiro carro destruído houve uma depredação com retirada daquilo que pudesse ter algum valor, seguido de sua destruição. No segundo: enquanto restava uma discreta aparência de cuidado não se tocou. Bastou ficar evidente o descuido e abandono para que por pura diversão fosse o carro revirado e destruído.

Verificou-se também em outros estudos que uma casa fechada por muito tempo, se se quebra um vidro em sua janela e é logo reposto mantem-se ali. Não havendo reposição ou reparo, pouco tempo depois aparecerão outros vidros quebrados e mais ações de vandalismo, não importando tanto o padrão da vizinhança.

Sabe-se de um típico exemplo de aplicação dessa teoria e a consequente queda da criminalidade em Nova York depois dos anos 90 para cá. Coseguiram  isso com uma presença maior do poder do Estado, na prevenção do crime, com a polícia em rondas a pé, com a limpeza e conservação dos espaços públicos.

Para o nosso país eu ainda acrescentaria a presença de bons serviços do Estado e acessibilidade a eles principalmente na educação. As escolas em tempo integral são o ponto fundamental para a solução desse mal, como também o é a oportunidade de profissionalização e lazer. Caso contrario vamos nos bestializar, desumanizar.

 

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Drumond

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drummond1Carlos Drumond de Andrade (Itabira, Minas Gerais em 1902 e falecido na cidade do Rio de Janeiro em 1987) é um dos maiores expoentes da literatura brasileira. Como ele mesmo define e decide neste seu poema mãos dadas não se dedicará a cantar o passado, mas seus verso sim terão um engajamento com o dia a dia, com a realidade, cantando a vida numa forma simples, coloquial até.

Convido a acompanhar nestes poemas que escolhi e que bem representam a obra do grande poeta os que tem prazer da leitura. Quem quiser também ouvir na voz do próprio poderá encontrar aqui.

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos,  mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drumond de Andrade

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drumond de Andrade

 

Drumond - RioConsolo na praia

Vamos, não chores
A infância está perdida
Mas a vida não se perdeu
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras
Em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas e o humor?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
Murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
Precipitar-te de vez nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.  

Carlos Drumond De Andrade  – Antologia poética

 

SOCIEDADE

O homem disse para o amigo:
– Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.

O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.

O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.

Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
– Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.

No caminho o homem resmunga:
– Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: – Que idiota.

– A casa é um ninho de pulgas.
– Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.

E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pôde retribuir a visita.

Carlos Drumond de Andrade

Transformar em poemas a constatação de fatos do dia a dia, sem falsa moral, como um fotografo, até mesmo no título conciso: “Quadrilha”; descrevendo sem delongas e finalizar com uma cena inesperada. Bom humor é uma marca de Drumond.

As desilusões amorosas, as frustrações, os desencantos, as perdas, as injustiças suportadas e timidamente contestadas, o não herói abatido: “dorme”, isso passa!

Quem não conhece um perfil do casal visitante bem tratado, resmungão, mas sempre retorna e nem dá espaço para o outro também visitar!? Poesia atual, poesia crônica, leve. Extraordinariamente agradáveis estas palavras de Drumond em todos esses poemas.

Fontes http://drummond.memoriaviva.com.br

 

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Saúde, seu dia mundial!

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A Organização Mundial da Saúde OMS dedica o dia 07 de abril para um alerta a todos nós sobre temas da Saúde, nesse ano 2013 a chamada é para a hipertensão arterial.

oms imagemLembra OMS: um em cada 3 indivíduos adultos de nosso planeta padece de hipertensão arterial. Esta doença, no ano de 2008, foi causa direta de mais de 17, 3 milhões de  óbitos no mundo – 30% do total das mortes ocorridas nesse ano. Esclarece que 80% das Infartos do miocárdio  precoces e AVC podem ser evitados. O quadro é mesmo de alarmar, continuando nestas bases de dados estatísticos no ano 2030 –  que não está assim tão distante – mais de 23,3 milhões de pessoas poderão morrer por esta causa.

Todos temos noções de que este quadro é mesmo sombrio, difícil é admitir que individualmente nós possamos ser sua vítima; é um compreensivel mecanismo de defesa esse nosso de não dar ouvidos ou de tapar os olhos. A avestruz é tida como mestra nessa arte e por vezes o perigo passa, mas mesmo sem ver pode ser atropelada!

Então o que fazer? Neste nosso mundo conectado, com tanta informação boa, tanta gente bem intencionada trazendo esclarecimentos e conselhos, semelhantes ao que aqui encontra, uma atitude de avestruz  é inconcebível.

Aqui mesmo resumidamente apresentei uma síntese do que fazer. Um dado importante: deixar de fumar é uma das medidas higiênicas mais salutares no que tange a diminuição do risco de doença cardiovascular (infarto e AVC), reduzindo esse risco pela metade logo após o primeiro ano de parar de fumar.

Para aqueles que necessitam mais argumentos, suscintos de que o exercício físico do simples caminhar é um bom hábito a ser ser reaprendido, indico 42 razões para andar.

É necessário abolir o álcool em excesso, pelos grandes danos que causa em todo nosso organismo (cirroses, pancreatites, doenças neurológicas, hemorragias digestivas, varizes esofágicas, desnutrição por deficiência metabólica, câncer de variados órgãos, por exemplos). Todavia, são inúmeros os estudos que identificam no vinho propriedades muito benfazejas aos vasos e coração. Não é sem razão que  em todas as linguas quando brindamos com algum vinho ou bebida espirituosa usamos termos correspondentes ao nosso SAÚDE!

Brindemos então.  S A Ú D E  

vinho brinde

 

 

fonte: OMS, campanhas mundiais de saúde em http://www.who.int/campaigns/world-health-day/2013/es/index.html

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Autismo

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Sempre estamos aprendendo. Hoje é dia dedicado a lembrar os pequenos autistas, por recomendação da OMS. Uma data como esta tem como resultado o reconhecimento dessa doença, sem estigmatizar os doentes, mas sim a humana consideração da diferença deles.

Em dezembro do ano passado a presidente Dilma promulgou lei (12674/2012) em exclusiva atenção aos autistas, reconhecendo seus direitos em igualdade com os demais cidadãos e a eles em especial, dando garantias legais, naquilo que sua diferença traz de especial.

A lei define “a pessoa com transtorno do espectro autista” a portadora de “síndrome clínica cuja deficiência seja persistente e clinicamente significativa da comunicação e da interação sociais”, com deficiência da fala, por comportamentos repetitivos e ou estereotipados e ritualísticos.

Elogiável a intensão de o dispositivo legal no estabelecer políticas de garantias a este grupo de cidadãos, garantindo os direitos fundamentais e proteções específicas e apropriadas, resguardando-os de qualquer tipo de discriminação.

Garante atenção integral às suas necessidades de saúde, o diagnóstico precoce, atendimento multiprofissional e o acesso a medicamentos e nutrientes; inserção no mercado de trabalho; “incentivo à formação de profissionais especializados com transtorno do espectro autista, com como a pais e responsáveis” e ainda estimulo a pesquisa científica desse transtorno.

Elenca também como direitos específicos da pessoa com transtorno do espectro autista:

  • a vida digna, a integridade física e moral, o livre desenvolvimento da personalidade, a segurança e o lazer;
  • a proteção contra qualquer forma de abuso e exploração;
  • o acesso a ações e serviços de saúde, com vistas à atenção integral às suas necessidades de saúde, incluindo:
    • a) o diagnóstico precoce, ainda que não definitivo;
    • b) o atendimento multiprofissional;
    • c) a nutrição adequada e a terapia nutricional;
    • d) os medicamentos;
    • e) informações que auxiliem no diagnóstico e no tratamento;

Contempla o acesso à educação e ensino profissionalizante, previdência e assistência social; contempla um Parágrafo único: Em casos de comprovada necessidade, a pessoa com transtorno do espectro autista incluída nas classes comuns de ensino regular, nos termos do inciso IV do art. 2o, terá direito a acompanhante especializado.

Mais, garante no: Art. 4o A pessoa com transtorno do espectro autista não será submetida a tratamento desumano ou degradante, não será privada de sua liberdade ou do convívio familiar nem sofrerá discriminação por motivo da deficiência.

Prevê penalidade para: O gestor escolar, ou autoridade competente, que recusar a matrícula de aluno com transtorno do espectro autista, ou qualquer outro tipo de deficiência, será punido com multa de 3 (três) a 20 (vinte) salários-mínimos.

Realmente, o que contempla esta lei, é em tudo louvável. O encargo maior cabe e é atribuição do próprio Estado. Pais têm sofrido, mesmo com todo o suporte que o amor que dedicam a seus filhos portadores do transtorno possa ser bálsamo ou lenitivo. Alguns entendem até mesmo como um karma. Todos merecem nosso reconhecimento pelo desvelo com que cuidam, pela esperança que sempre carregam.

Qual a causa desse transtorno? Eis uma questão inquietante para eles e também para aqueles que militam no atendimento à saúde de um modo geral. Quanto mais precoce o seu diagnóstico, maiores e melhores as chances de resultados para um futuro mais animador.

Este assunto trouxe-me inquietação estou buscando mais informações para aprendendo poder compartilhar com todos.  De momento deixo aqui a possivel conexão de uma mãe que busca experiências e traz seus depoimentos animadores, AQUI.

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Uma síntese

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Graças ao bom Deus, hoje há mais pessoas interessadas em buscar uma melhor qualidade de vida, não importando de quando é o momento para esse despertar.

Qualquer tempo está em tempo certo. Uma das combinações sempre recomendadas, por profissionais e entidades que velam e zelam pelos cuidados de saúde das populações pode estar simplificada em dois pontos basilares: boa alimentação e fuga do sedentarismo.

Estes dois pilares compreendem no primeiro: respeito aos hábitos alimentares saudáveis, com controle dos excessos de ingesta de açúcares e sódio, (sal); outros são aditivos e conservantes,  dos quais é preciso estar atento; nos industrializados – para consumo direto – é muito frequente a presença dessas substâncias que, a longo prazo, conduzem a uma desorganização  de nosso organismo, levando a uma acostumação e verdadeira dependência. Aqui o grupo de maior destaque são os refrigerantes gaseificados, as colas e outros! Já no segundo pilar está: o combate (ou num termo mais pacífico) – a fuga do sedentarismo – que já indica em si movimento, o que é preciso. Mesmo que não seja uma obrigação rigorosa na frequência e tempo, pode ser também mais tímida, o que sempre trará benefícios. Encontrei uma simplificação desses benefícios que convido a ler.

caminhar2Caminhar faz bem para o corpo e para a mente

A caminhada é um dos exercícios mais fáceis de ser praticado, pois não exige habilidade, o custo é baixo, pode ser praticada a qualquer hora do dia e em qualquer lugar, além disso não tem restrição de idade e traz vários benefícios para o corpo e para a mente. Conheça alguns deles:

  1. Melhora a circulação
  2. Afasta a depressão
  3. Mantém o peso em equilíbrio e emagrece
  4. Deixa o pulmão mais eficiente
  5. Combate a oeteoporose
  6. Aumenta a sensação de bem-estar
  7. Controla a vontade de comer
  8. Protege contra derrames e infartos
  9. Deixa o cérebro mais saudável
  10. Diminui a sonolência
  11. Diminui o risco de diabetes

caminhando2

Obs: Estes destaque encontrei-os simplificados num blog de fabricantes de tintas Anjo !

 

 

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Páscoa e peixe

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Aproximando-se o período da celebração da Páscoa, depois de todo o período da quaresma, há tradicionalmente uma maior procura e consumo de peixes. Esta sazonalidade é de natureza religiosa e não climática. É normal a estação determinar o aumento de consumo de um ou outro produto, quando há deles uma oferta maior – morangos comem-se mais na época de morangos, assim também peras e marmelos.

Estamos no fim da denominada Quaresma, o período que se segue ao carnaval e antecede a Páscoa. Hoje nem é tão ligado ao sentido religioso, sua essência mudou. Dos festejos do carnaval, pesquisadores encontram serem originados em cultos à divindades anteriores à era cristã. Logo depois da aliança da Igreja Romana com aquele Império, muitas festas foram cristianizadas entre estas o Carnaval. Segue-se a ele no calendário Gregoriano a Quaresma, em que por preceitos eclesiásticos, desde a baixa idade Média, era proibido o consumo de carnes – de animais de sangue “quente”. Além dessa abstinência forçada das carnes, eram todos convidados ao jejum. Práticas consideradas como sacrifícios individuais para uma aproximação do sofrimento do Salvador  – durante 40 dias afastou-se para um deserto em jejum e orações, após o batismo no Jordão e sua confirmação como o Messias, antes ainda de iniciar as pregações e de operar qualquer milagre. A Semana Santa é a celebração de sua morte e sacrifício pela humanidade com a agonia finalizada na cruz.

O domingo de Páscoa comemora a Ressurreição de Cristo; tem suas raízes nas práticas do judaísmo – veja em Êxodo a décima praga do Egito – com o sentido de Libertação. Para muitas crianças, Páscoa é dia de ganhar ovos de chocolates; algumas aprenderam assim e crescem e mesmo adultas ainda assim pensam. Observo ter ocorrido, desse conteúdo religioso, uma mercantilização . Outras celebrações, não só da fé cristã, foram adaptadas também ao comércio.

Jesus Cristo de Deus Filho, Salvador

Jesus Cristo de Deus Filho, Salvador

A simbologia do peixe para o cristianismo, vai além de sua presença frequente nos textos sagrados. Vem da tradição que diz: nos tempos de grande perseguição em Roma e todo o seu império – tidos como subversivos da ordem, os seguidores de Jesus de Nazaré se acautelavam. Estes ao se encontrarem nos caminhos, um desenhava com o cajado um meio arco no chão, se o interlocutor completasse com outro de concavidade oposta – formava a representação de um peixe. Não haveria nem segredos nem simulações entre ambos então, caso isso não ocorresse o primeiro arco não passaria de um risco qualquer sobre a terra.

A explicação é que Peixe em grego (ichthys) contém as iniciais de Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. No contexto da celebração da Páscoa, é o peixe bem mais cristão do que o chocolate, o ovo e o coelho. Mas pode-se até discutir: Páscoa nos dias atuais tem ainda a conotação religiosa ou acaso tornou-se unicamente no apelo comercial de um segmento da indústria?

Estes pensamentos eu os deixo aqui como um aperitivo ou uma taça de bom vinho na celebração de sua Páscoa, sendo você cristão ou não. Para seu almoço continuo falando de peixe.

O consumo de peixe é de todo saudável e nós os brasileiros estamos muito aquém na cota desse alimento. O Bacalhau (gadus moruha) tem suas vantagens. Sua conservação é feita sem aditivos, não se lhe acrescenta química ou conservantes, exceto o sal, o vento e o sol nos estendais da seca do bacalhau. Sua origem é de águas profundas e frias do mar do Norte.  De longa data os maiores exploradores desse pescado são os islandeses, noruegueses, portugueses e espanhóis.bacalhau

Seu consumo em Portugal é tão comum que até foi incorporado em algumas expressões típicas como: “em águas de bacalhau” – quando se refere a alguma coisa a que não se deu muita importância; “apertar o bacalhau” – convidando alguém para um cumprimento amistoso, de mão estendida, um aperto de mãos.

Nós o conhecemos, quase tão só, seco e salgado. Isto traz um cuidado na sua dessalga (extração do sal). Seu preço é um tanto elevado. Quando o adquirir e assim pensar, lembrar-se que depois da dessalga e já demolhado seu peso aumenta em torno de 30 %, considere isto como vantagem no que pagou! É um bom desconto!

Aproveite e escolha algum corte de maior espessura e quanto mais seco melhor (há alguns fungos que persistem, quando a seca não foi bem conduzida, e dão uma tonalidade madeira no bacalhau). Para dessalgar gastará muita água em trocas sucessivas por umas 48 horas. Depois disso, as postas podem ser guardadas no congelador, facilitando seu uso.

Há inúmeras maneiras de fazer-se o bacalhau. Quase todas, depois desse processo e retirada ou não da pele, usam aferventá-lo, reservando essa água para o cozimento de arroz branco ou dos legumes que o podem acompanhar. Pode ser bem acompanhado tanto de arroz, como de batatas (assadas, guisadas, sauté, em puré). É um peixe que pede sempre um pouco de alho e um generoso azeite, escolha o de menor acidez.

Lembrando dos melhores acompanhantes do Bacalhau, o azeite e o vinho, veio-me à lembrança dos lagares onde eram esmagadas tanto as uvas como as olivas para extração ou do azeite ou a produção do vinho. Busquei então esta receita de Bacalhau a Lagareiro.

Para 4 pessoas INGREDIENTES:
2,400 kg – 4 Lombos de Bacalhau Dessalgado ( ou 2 kg de Lombos de Bacalhau Salgado e Seco )
1 xícara de leite
4 dentes de alho, cortados em rodelas finas
sal (?) e pimenta do reino a gosto
suco de 1 limão
2 ovos batidos farinha de rosca (pão ralado) para envolver
2 colheres de sopa (30g) de manteiga de leite
1 ³/4 xícara de azeite extra-virgem
MODO DE PREPARAR: ( Se o bacalhau é salgado e seco, deve antes ser dessalgado conforme as instruções. )
Colocar os lombos de bacalhau em um refratário com água a ferver por 5 minutos.
Retirar as peles e os espinhas e cortar cada lombo em 2 postas.
Em uma travessa, colocar o bacalhau, regar com leite, temperar com alho em rodelas, sal, pimenta do reino e o suco de limão e deixe de molho por 2 horas. Pré-aquecer o forno em temperatura média (180°C). Escorrer as postas de bacalhau, reservando o leite.
Passar nos ovos batidos e, em seguida na farinha de rosca, procurando envolvê-los por completo. Distribuir as postas de bacalhau em uma travessa (que possa ser levada ao forno), colocando sobre cada um deles um pedacinho de manteiga.
Regar com um pouco de azeite, mas sem cobrir as postas de bacalhau, e com 2 colheres(sopa) do leite reservado.
Levar ao fogo e assar, regando de vez em quando com o molho que se forma no fundo da travessa, até o bacalhau ficar bem dourado.
Retire do forno e sirva com Batatas a Murro e salada.
  

Para quem se assusta com o preço do Bacalhau, apresento os peixes de nossos rios, de grande sabor e múltiplas possibilidades de preparo: Tambaqui, Pacu, Caranha, Matrinchã, Tucunaré e outros, todos excelentes para um saboroso assado.

Eis como faço: escolho um desses peixes, entre 2 e 3 kg.  Na compra cuido de ver suas guelras, o brilho dos olhos e a consistência da musculatura. Não o descamo, depois de eviscerado, por dentro ao longo de sua coluna faço um corte sem ultrapassar o couro, prolongando em toda parte mais carnuda da cauda. Isto facilita a penetração dos temperos.

Depois de bem lavado, rego com o suco de uns dois ou três limões e o deixo um pouco de espera a escorrer.Para um tempero, junto uns 3 dentes de alho, uma cebola grande partida em 4, algumas folhas de hortelã, cheiro verde a gosto, 3 colheres de bom azeite e folhas de manjericão, levo tudo ao liquidificador acrescentando o sal suficiente.

Esse caldo despejo na barriga aberta, forçando para que entremeie no corte feito antes, regando por sobre a pele, perfuro o dorso ou lombo; vai escorrer na bandeja, o que não é problema.Uma cebola cortada às rodelas, algumas batatas em fatias não muito finas, um raminho de alecrim e alfavaca e uma ou duas bananas bem firmes partidas ao meio em seu comprido, faço o enchimento de sua barriga.Ponho numa assadeira refratária, funda o suficiente, coberta com papel alumínio.

Levo ao forno para assar (180 graus). Uma boa substituição do papel alumínio, para quem tem facilidade de obter, é envolver o peixe em várias camadas de folhas verdes de bananeira. Tanto o alumínio quanto essa da bananeira retiro depois de cozido e volta ao forno para dourar, até a pele soltar-se em bolhas. Nessa segunda etapa de forno, acrescento batatas previamente cozidas para guarnecer e secar o excesso de molho que forma.

Todas as vezes que o servi agradou.  Fica bem aromático. Acompanha o trivial arroz branco ou arroz de tomates. O vinho fica por sua escolha. Bom proveito.

 

 

 
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E o que há de mal?

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É uma verdadeira arte o Marketing, utilizando conhecimentos de várias ciências para lograr a sua meta. Se deixado a serviço e interesse exclusivo do ganho, “do vender mais”, pode tornar-se sem escrúpulos, sem ética. Felizmente seus riscos são por demais conhecidos. A ética da classe, contida nos regulamentos do CONAR e nas leis, susta maiores malefícios e desmandos.

Num contexto geral, principalmente na propaganda de alimentos ou correlatos, a força de convencimento da publicidade é maior que o comportamento crítico das pessoas. Acabamos sendo “dominados” pelos seus conteúdos e resolvendo “compras” ou tomando atitudes “enquadradas” nas necessidades criadas e absorvidas como tal. As crianças e adolescentes são ainda mais “conduzidos”, e se não houver uma atenção maior dos pais, acabam conduzindo também estes.

É isso mal? Intrinsecamente não. Mesmo sendo uma ciência relativamente nova, tem o Marketing sua origem nos mercadores da antiguidade – estes, circulando mercadorias e dinheiros, mudaram o mundo. Parabéns para eles e para a humanidade.

Onde então está o mal? Na nossa fragilidade, em nossa tendência a buscar a simplificação, o caminho mais curto, em sermos crédulos em tudo que se apresenta como bom, bonito, palatável, distintivo de posição social, estar na moda, etc. É só recordar do cigarro e o hábito de fumar nos anos 60 e seguintes. As campanhas com o tempo acabaram por gerar um comportamento: a forma de ser aceito. Consequência: muita riqueza, muitos impostos – mas também muitas vidas, muito dinheiro público gasto na saúde, até nos dias de hoje. Agora vem o alerta, que usando os próprios instrumentos da promoção, alardeia os danos e os riscos do hábito de fumar!

Pergunto: não fora por imposição legal do alerta, estaria a indústria tabaqueira agindo assim? – Isto lhe faz mal, mas se for de sua vontade, use. cantina escolar

Um estudo (2008-2009) realizado nos EUA, pátria modelo do nosso consumismo, por Brent A. Langellier, publicado em 2012, teve como ponto de partida a avaliação da influência da presença dos pontos de venda de alimentícios não-saudáveis nas proximidades das escolas.

Avaliou mais precisamente a possível influência da presença dos quiosques de esquina e dos fast-foods em torno das escolas públicas de Los Angeles e a prevalência de obesidade entre os escolares. Primeiro identificou-se que os quiosques (vendas de esquina) e locais de distribuição de alimentos não-saudáveis têm um reduzido estoque de itens considerados saudáveis. Estes pequenos estabelecimentos tendem a se aglomerar nas proximidades das escolas. Mais, os adolescentes e crianças ai adquirem alimentos sabidamente não-saudáveis.

Diz o autor da pesquisa: “Minha hipótese era que os estudantes que frequentam as escolas próximas dos quiosques e restaurantes de fast-foods têm maior acesso a alimentos não-saudáveis e talvez o risco de sobrepeso maior que os escolares que frequentam escolas que não estejam próximas de tal tipo de venda de comidas”.

Na pesquisa foram consideradas variáveis tais como: raça (branco, negro, asiático ou latino); se a escola era localizada em área urbana, suburbana ou rural e ainda o grau da escola: elementar, média e “high school”. O universo pesquisado foi de 1694 escolas. Encontrou-se: Em 65% dessas escolas os latinos eram maioria, em 11% a maioria era de brancos, em 3% com maioria negra e em 5% a maioria era asiática. (64% das escolas tinham quiosques de venda de alimentos e fast-food localizados em um entorno de 800 m). Entre as escolas cuja maioria era de latinos verificou-se que aquelas que tinham num raio de 800 m um quiosque ou restaurante de fast-food havia uma prevalência de 1.6 pontos percentuais a mais de obesos que naquelas em que nessa distância não tinham este tipo de comércio. Não foi encontrada diferença de prevalência de sobrepeso dos alunos quando se avaliou a variável racial.

Diz também o estudo que 17% das crianças e adolescentes são obesos e 32 % deles naquele país têm sobrepeso. Considerando o total de alunos, a presença de restaurantes fast-food no entorno de 800 m da escola não demonstra ser associada com o sobrepeso dos estudantes. A presença, todavia, de quiosques de esquina com oferta de alimentos não-saudáveis, nesses 800 m entorno das escolas cuja maioria era de origem latina, correlaciona-se com significativa incidência e prevalência de sobrepeso nesses estudantes. Não foi identificado dado significativo naquelas escolas, de qualquer predominância racial, cujos alunos estavam incluídos nos programas de alimentação na escola. Esse programa restringe nas cantinas a oferta de alimentos não-saudáveis.

Afirma o prof. Langellier: “Eu encontrei que a presença de pelo menos um quiosque de lanches no entorno de 800 m de uma escola está associado com uma significativamente elevada prevalência de sobrepeso entre escolares naquelas escolas de maioria Latina. Uma possível explicação para este achado é que os estudantes adquirem alimentos não-saudáveis e itens de bebidas nas lanchonetes do entorno da escola, o que então aumenta o risco desses estudantes ficarem com sobrepeso”.

Os latinos residem em áreas onde mais adensam os pontos de venda de alimentos não-saudáveis. Têm já o hábito familiar da procura desses alimentos. Isto confirma que a permanência de qualquer atividade comercial num local só se entende porque há possibilidades dela prosperar.

Fica a pergunta – mudando a qualidade dos alimentos estocados nesses quiosques haveria mudança (educativa) de hábitos?  nao podem faltar Cabe ao poder público local (município) – legislativo e executivo – estabelecerem mecanismos que reduzam este hábito dos escolares. A atitude iniciada com as disposições da portaria conjunta dos ministérios da Educação e da Saúde é um avanço, porém é evidente que o afastamento desses pontos de venda tem de ir além do muro interno da escola e ultrapassar mais de 1 km além dele.

Os achados, também a meu ver, reforçam a premissa de que os hábitos alimentares em família são o fator de maior peso quando na decisão de escolha do alimento: as escolas localizadas em bairros com predominância de latinos são as de maior prevalência de sobrepeso e obesidade. O estilo de vida americano é como uma miragem para os imigrantes, uma aspiração agora alcançada. Também, são as crianças aprendizes do que escolher para comer com os exemplos dos parentes com quem convive.

É hora, então, de os pais conscientes, e que buscam uma vida saudável, se preocuparem com os exemplos que “ensinam” seus filhos. Isto principalmente no que tange ao excesso de consumo de açúcares – refrigerantes – e o uso desmedido do sal, este nem deverá estar de fácil alcance nas casas e mesas. A própria Academia Norte Americana de Pediatria em análises dos efeitos da publicidade nas crianças e adolescentes tem encontrado evidências de que as crianças com menos de 8 anos são indefesas, no sentido cognitivo e psicológico, no tocante à propaganda. Por esta razão devem ser, de certo modo, protegidas da publicidade sendo injusto e enganador fazer propaganda para estes pequenos. As leis de muitos países já atentam para isso.

No Brasil o CONAR, buscando antecipar-se aos legisladores, apresentou às casas de leis nacionais alterações no seu código de auto regulação publicitária. Neste código – a Seção 11 – Crianças e Jovens – o artigo 37 – diz: “Os esforços de pais, educadores, autoridades e da comunidade devem encontrar na publicidade fator coadjuvante na formação de cidadãos responsáveis e consumidores conscientes. Diante de tal perspectiva, nenhum anúncio dirigirá apelo imperativo de consumo diretamente à criança”. O órgão regulador ainda disseca mais o assunto e especifica as proibições de ordem da ética profissional. O conselho, organismo regulador profissional, demonstra sensibilidade para com o tema. A meu ver tais normas deveriam ser leis, para uma força maior.

O CONAR atua principalmente com base em denúncia e podendo até agir “ex-officio”, mas este caminho será sempre mais moroso. A sociedade deve conhecer essas normas, para preservar as crianças das más influências de publicidades – principalmente em campanhas de produtos destinados à alimentação.

Felizmente a imprensa tem noticiado algumas atitudes por parte das autoridades de saúde e educação que merecem elogios. Lamentável é que só agora se atentam para isso. Antes tarde do que nunca. Os questionamentos têm de ser feitos pelas pessoas conscientes e a sociedade organizada e atenta.

Fontes :
Langellier BA. The food environment and student weight status, Los Angeles County, 
CONAR: Código Brasileiro de auto regulamentação publicitária.
Obesidade nas escolas
Como orientação de como alimentar nas escolas – cadastre-se!

 

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vejam os homens

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A bem da verdade, não é preocupação desta página ter caráter noticioso, mas sim informativo. Hoje, no entanto, me deparei com uma notícia preocupante em vários aspectos. Vem de Moçambique. Todos sabemos das múltiplas dificuldades do país e de seu povo. É preciso que as autoridades de lá se atentem para o que ocorre, como alerta o conservacionista nessa entrevista que transcrevo na sua integridade e os devidos créditos. A opinião pública também, não só moçambicana, deve atentar e se mexer para que isso não se perpetue. Para isso é fundamental que se pare de permitir o comércio do marfim. Me pergunto, é mesmo ele fundamental para a existência de algum humano? Ou tão somente do elefante!

Parem de vez com essa matança. O seu comércio ganancioso, corrupto e corruptor tem de ser combatido por organismos internacionais, como o das drogas.  Acompanhem aqui o texto.

Em apenas dois anos: Furtivos abateram 2500 elefantes no Niassa.

Escrito por Ricardo Sousa   26 de fevereiro de 2013 em Notícias de Moçambique

A Reserva do Niassa perdeu nos últimos dois anos, (2011-2012), cerca de dois mil e quinhentos elefantes, devido à caça furtiva. A matança ocorreu igualmente no Parque Nacional das Quirimbas, em Cabo Delgado, onde se estima que em média são ilegalmente abatidos cento e vinte elefantes por ano, segundo o CTV.

A informação foi avançada ao jornal Notícias pelo antigo diretor de conservação do Parque Nacional da Gorongosa, o conceituado médico veterinário, Carlos Lopes Pereira, que recentemente visitou aquelas duas áreas de conservação da biodiversidade, da região norte do país.

Segundo Lopes Pereira, se o país continuar a registar os atuais índices de caça furtiva, em cinco anos, populações de elefantes, búfalos e de outros grandes antílopes, poderão atingir níveis de extinção.

“O que vi e conheci no Niassa e nas Quirimbas indica um caminhar para a total destruição do património faunístico do país, se não tomarmos medidas firmes para impedir esta catástrofe”, frisou a fonte acrescentando que a caça furtiva na Reserva do Niassa, em particular, não somente gera impactos negativos sobre a biodiversidade como também no turismo. “O facto de, nos últimos anos, nenhum operador faunístico da província do Niassa ter conseguido abater um elefante, com pontas de marfim pesando o mínimo de 50 libras, (aproximadamente 23 quilogramas), conforme o estabelecido na Lei de Florestas e Fauna Bravia, é por si um indicador claro do abate indiscriminado daqueles animais”, disse.

No que se refere a outras espécies como o búfalo e outros grandes antílopes não restam dúvidas que os métodos utilizados pelos caçadores furtivos vão contribuir para o declínio e fragmentação das populações a médio e longo prazo, acrescentou Carlos L. Pereira, citado pelo matutino Notícias.

 

Guardas florestais e elefante abatido foram retiradaos os dentes (pontas) de marfim

Guardas florestais e elefante abatido foram retiradaos os dentes (pontas) de marfim

O uso massivo de trincheiras e laços com a ajuda de vedações que se prolongam por mais 1 / 3  de um quilómetro de extensão, prova que a caça furtiva não é motivada pelas necessidades de subsistência das populações, mas sim por objectivos comerciais, sublinhou Lopes Pereira.

Para o conservacionista, o mais correto seria banir totalmente a caça ao elefante, nas coutadas e nas reservas de caça. A medida, segundo ele, levaria os operadores faunísticos a explorarem outras atrações turísticas nas suas concessões e não teriam que inventar desculpas de última hora para os clientes, a quem tenham prometido o abate de elefantes com pontas pesando mais de 50 libras.

De acordo com aquele veterinário, face à escassez de elefantes adultos na Reserva do Niassa e no Parque Nacional das Quirimbas, com pontas pesando o mínimo de 50 libras, operadores faunísticos há que solicitaram às autoridades competentes, autorização para abater animais daquela espécie, com o marfim abaixo do peso exigido por lei. Pela mesma razão, caçadores furtivos abatem elefantes com menos de quatro anos de idade, no Parque Nacional das Quirimbas.

Carlos L. Pereira mostra-se preocupado ainda com o envolvimento de alguns elementos das autoridades da província do Niassa na caça furtiva, direta ou indiretamente, de forma aberta ou a pretexto do conflito Homem/fauna bravia. “ Há meses que me diziam que elementos da guarda fronteira, na província do Niassa, estavam envolvidos nesta prática ilegal. Pedi aos colegas que trouxessem provas inequívocas do seu envolvimento e eles trouxeram. Hoje o próprio comandante da Polícia em Mecula já não consegue negar o envolvimento dos seus homens, porque pudemos demonstrar inequivocamente o seu envolvimento recente, através da entrega de armas de fogo a caçadores furtivos”, revelou.

Guarda Fronteira envolvida no tráfico de marfim

Em Dezembro de 2011, oito elementos da Guarda Fronteira, na província do Niassa, estiveram envolvidos na venda de trezentos e cinquenta quilogramas de marfim aprendido a cidadãos tanzanianos, tendo sido apenas transferidos, ao invés de serem exemplarmente punidos, conforme o estabelecido na lei, que agrava a penalização quando se tratar de membros da autoridade.

O estabelecimento de comandos conjuntos, constituídos por elementos da Guarda Fronteira e da Direção Nacional das Áreas de Conservação, para a proteção de espécies faunísticas e florestais, nas províncias do Niassa e de Cabo Delgado, embora bem-intencionado não constitui um mecanismo viável para conter a caça furtiva no terreno, defende Carlos L. Pereira.

Justifica que o fracasso se deve à ausência de métodos claros de trabalho e da fraca

preparação dos elementos da Guarda Fronteira em matérias de fauna e flora, em relação aos fiscais ajuramentados.

“O envolvimento de militares (especializados) é uma opção, mas tem que ser devidamente enquadrado para se alcançar resultados consistentes. É necessário que eles encontrem no terreno a serenidade e profissionalismo necessários para poderem ser bem enquadrados, encaminhados e sucedidos”, concluiu o conservacionista Carlos L. Pereira, para quem a solução do atual problema passa pela revisão de todo o sistema de fiscalização faunística e florestal, começando pela correta seleção dos candidatos e treino dos fiscais a serem afetos   nesta área.

Em apenas dois anos: Furtivos abateram 2500 elefantes no Niassa.

Escrito por Ricardo Sousa   26 de fevereiro de 2013 em Notícias de Moçambique

Observação : 2500 só os não autorizados, que alimentam o tráfico do marfim. A que número chegariamos  se contados os abatidos em mesmas condições em toda África? Vejam bem, são mais de 3 elefantes por dia que são abatidos nesta forma, para essa finalidade criminosa e só nessa provincia de Niassa. É revoltante!

 

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Poetas e Poesias

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Poetas sempre cantam e decantam sentimentos. O amor e o desamor, o engano e o desengano, a timidez camuflada que impede se declarar à amada. As suaves metáforas que nos fazem vagar na cadência e sonoridade das palavras. Com rimas ou sem elas. Os elementos: Vento, Mar, Fogo frequentam sempre a imaginação e os versos dos bardos,  menestréis e poetas.

Luiz de Camões (Lisboa: 1524 – 1580) reverenciado como o mais ilustre escritor português de sua época, fez brilhar nosso idioma sendo até hoje reconhecido. Foi movido por uma alma inquieta, deixou vasta obra, numa sequência de desafortunada vida. Hoje busco dele alguns sonetos e algo mais que inesperadamente vi a ele relacionado ou no tema ou na inspiração.

Tanto de meu estado me acho incerto,
 Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.
 
É tudo quanto sinto – um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
 
Estando em terra, chego ao céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.
 
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

E diz de si mesmo, clamando pela amada e lamentando seus erros e desvarios.

Erros meus, má fortuna, amor ardente
 
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.
 
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
 
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa (a) que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
 
De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

 

Augusto Frederico Schmidt exalta o autor dos lusíadas em um soneto seu lembrando das águas, do mar, do vento e também de “dessa palpitação de juventude”.

Poeta maior da raça peregrina,

 
Poeta maior da raça peregrina,
Como teu canto é vivo e prodigioso,
Que o vento antigo treme e vibra ainda
No veleiro que a Ulisses conduzia,
 
Pelos mares ilustres celebrados!
Poeta da aurora de rosados dedos,
Que Aurora nasce da tua voz tão fresca
Como as águas à luz do claro dia!
 
Foi o mar que aos teus cantos deu o alento
E a veemência de forças indomáveis,
Que flutuam no tempo, eternamente.
 
Foi o mar, que chamaste de infecundo,
Que soprou nos teus versos essa flama
E essa palpitação de juventude.
 

As seguintes estrofes de O lutador de Manuel Bandeira, podem se aplicar mesmo àquele poeta que acompanhou e cantou os feitos fantásticos de seu povo, numa fase de suposta glória.

O lutador
 
Buscou no amor o bálsamo da vida,
Não encontrou senão veneno e morte,
Levantou no deserto a roca forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!
 
Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
– A ululante Quimera espavorida!
 
Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado.
 
E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!
 (30 de setembro – 1.0 de outubro de 1945)

 

Fontes:  Versos e alguma prosa de Luiz de Camões Ed. Fundação Calouste Gulbenkian; 10 de junho 1977 – Lisboa
Augusto Frederico Schmidt – Sonetos, Rio Gráfica Ed. Ltda. Rio de Janeiro – Abril de 1965.
Manuel Bandeira – Melhores Poemas – Seleção de Francisco de Assis Barbosa (12.a Ed) 1998 – Global Editora.
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