As mãos de meu pai!

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Um pensador e dono de uma arte poética invejável é o gaúcho Mário Quintana. Cultuava e cultivava a palavra e seus efeitos, com simplicidade e surpresa como nestas curtas estrofes;  seja até mesmo no título.

Mario QuintanaPoeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

(Prosa e Verso, 1978)

Em reflexão sobre a morte, com graça escreve:

“Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas… Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida – a verdadeira – em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira”.

“A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”.

Mário Quintana por ele mesmo:  – “Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.

Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu… Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim.

Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo – que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.” (Texto escrito pelo poeta para a revista Isto É de 14/11/1984)

Lendo seus poemas vi e senti em suas palavras a figura de meu próprio pai, de mãos calejadas e firmes. Calos e suor foram seus dias, de poucas palavras e muito saber, se vivo ainda leria com carinho para ele. Trago os dois compartilhando com vocês,

As mãos de meu pai

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis meu pai

sobre um fundo de manchas já da cor da terra

– como são belas as tuas mãos

pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos…

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida.

E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta,

uma luz parece vir de dentro delas…

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste alimentando na terrível solidão do mundo,

como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?

Ah, como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!

E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas…

essa chama de vida – que transcende a própria vida…

e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.

Mário Quintana (Poesia Completa, Rio, Nova Aguilar, 2005)

 

Essa outra extraída do mesmo livro:

lareiraInscrição para uma Lareira

A vida é um incêndio: nela

dançamos, salamandras mágicas.

Que importa restarem cinzas

se a chama foi bela e alta?

Em meio aos toros que desabam,

cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,

na própria luz consumida…

Mário Quintana (Poesia Completa, Rio, Nova Aguilar, 2005)

 Editado por Francisco Sales 

fontes: a magia da poesia

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Participou do corpo Clinico do HMI Goiânia de 1986 a 2013. Homeopata unicista.
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3 respostas a As mãos de meu pai!

  1. Bernadeth Carvalho disse:

    Ei!? É uma foto do vó Martinho!?

    • Sim é uma foto de meu saudoso pai. Encontrei este poema do Mário Quintana e fosse eu poeta teria também dedicado versos semelhantes às mãos de quem não as poupou no duro trabalho da terra e alguns singelos afagos: Martinho, de poucas palavras e muito ensinamento.

  2. José Martins Carvalho Júnior disse:

    É estranho dizer mas,
    AMOR PELA VIDA DEVE SER ETERNO.

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