Poetas e Poesias

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Poetas sempre cantam e decantam sentimentos. O amor e o desamor, o engano e o desengano, a timidez camuflada que impede se declarar à amada. As suaves metáforas que nos fazem vagar na cadência e sonoridade das palavras. Com rimas ou sem elas. Os elementos: Vento, Mar, Fogo frequentam sempre a imaginação e os versos dos bardos,  menestréis e poetas.

Luiz de Camões (Lisboa: 1524 – 1580) reverenciado como o mais ilustre escritor português de sua época, fez brilhar nosso idioma sendo até hoje reconhecido. Foi movido por uma alma inquieta, deixou vasta obra, numa sequência de desafortunada vida. Hoje busco dele alguns sonetos e algo mais que inesperadamente vi a ele relacionado ou no tema ou na inspiração.

Tanto de meu estado me acho incerto,
 Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.
 
É tudo quanto sinto – um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
 
Estando em terra, chego ao céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.
 
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

E diz de si mesmo, clamando pela amada e lamentando seus erros e desvarios.

Erros meus, má fortuna, amor ardente
 
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.
 
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
 
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa (a) que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
 
De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

 

Augusto Frederico Schmidt exalta o autor dos lusíadas em um soneto seu lembrando das águas, do mar, do vento e também de “dessa palpitação de juventude”.

Poeta maior da raça peregrina,

 
Poeta maior da raça peregrina,
Como teu canto é vivo e prodigioso,
Que o vento antigo treme e vibra ainda
No veleiro que a Ulisses conduzia,
 
Pelos mares ilustres celebrados!
Poeta da aurora de rosados dedos,
Que Aurora nasce da tua voz tão fresca
Como as águas à luz do claro dia!
 
Foi o mar que aos teus cantos deu o alento
E a veemência de forças indomáveis,
Que flutuam no tempo, eternamente.
 
Foi o mar, que chamaste de infecundo,
Que soprou nos teus versos essa flama
E essa palpitação de juventude.
 

As seguintes estrofes de O lutador de Manuel Bandeira, podem se aplicar mesmo àquele poeta que acompanhou e cantou os feitos fantásticos de seu povo, numa fase de suposta glória.

O lutador
 
Buscou no amor o bálsamo da vida,
Não encontrou senão veneno e morte,
Levantou no deserto a roca forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!
 
Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
– A ululante Quimera espavorida!
 
Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado.
 
E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!
 (30 de setembro – 1.0 de outubro de 1945)

 

Fontes:  Versos e alguma prosa de Luiz de Camões Ed. Fundação Calouste Gulbenkian; 10 de junho 1977 – Lisboa
Augusto Frederico Schmidt – Sonetos, Rio Gráfica Ed. Ltda. Rio de Janeiro – Abril de 1965.
Manuel Bandeira – Melhores Poemas – Seleção de Francisco de Assis Barbosa (12.a Ed) 1998 – Global Editora.
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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Plantonista do HMI Goiânia de 1986 a 2013.
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