Um conto de Moacyr Scliar

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Um dos interesses desta página é trazer tema que sirva para uma reflexão, ou simples lazer de uma boa leitura, com textos extraídos de nossa literatura. Transcrevo na íntegra um conto do livro Contos Reunidos de Moacyr Scliar, editado por Companhia das Letras, SP, 1995.
Escreve com uma incrível dose de fantasia e humor. Faça bom proveito e reflita como é a alma humana!
!

“Bandido

Meu tio tinha cara de bandido e era graças a isso que ganhava a vida. Trabalhava para um clube de Brasília que se gabava de fornecer aos sócios diversões inusitadas. Tais como os assaltos simulados, a cargo do meu tio.
A coisa funcionava da seguinte maneira. Ao cair da noite ele se dirigia para o estacionamento do clube e ali ficava, meio oculto entre as árvores. Quando um sócio aparecia, meu tio saía de seu esonderijo e, de revólver de plástico na mão, gritava: quieto, isto é um assalto. O sócio – tudo previamente combinado – levantaria os braços, mas, meu tio se aproximando, ele lhe daria um golpe no pulso, fazendo o revólver voar; e aí daria um soco na barriga de meu tio, que se curvava gemendo – apenas para ser atingido por outro devastador murro no queixo. Tombava como uma árvore abatida, seria chutado pelo sócio e ficaria estendido no asfalto, sangrando como um porco. O sócio, limpando as mãos e bradando alto e bom som: que isso te sirva de lição, entrava para jogar cartas.
Meia hora depois meu tio se levantava e, cambaleando, entrava no clube pela porta de serviço. Ia até o ambulatório, onde o enfermeiro lhe fazia um curativo nos ferimentos, e depois passava na caixa para receber o cachê – não muito alto, mas suficiente para que sobrevivesse com dignidade. O importante é isso, ele nos dizia, dignidade. Mostrava-nos com orgulho o revólver: vejam que imitação perfeita, fui eu mesmo que escolhi. Nesse momento eu surpreendia em seu olhar um estranho brilho, selvagem e inquieto ao mesmo tempo. Só muito mais tarde descobri a razão: meu tio temia que algum sócio novo, mal informado pelo clube, lhe entregasse tudo, carro, dinheiro, mulher. Tanta ansiedade lhe causava essa perspectiva que veio afinal a se matar. Com um revólver de verdade que guardava em casa, não se sabe exatamente por quê. Medo de ladrões talvez.”

Moacyr Scliar (1937 – 27/02/2011)

 

editado por  Francisco Sales   em 25 de novembro de 2012

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Plantonista do HMI Goiânia de 1986 a 2013.
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