Matracas.

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Nestes dias que fiquei mais parado em casa, urdindo uma coisa ou outra, muitas cenas dos meus tempos de infância no interior repovoaram minha mente.

Corriam os anos 50, na denominada Ivapé, situada do lado goiano, às margens do Rio Araguaia. Muito pequena, com algumas poucas casas comerciais: a Casa Mineira do senhor Menezes, a loja do Dandico e o “bolicho” do Coló –  (pequena venda de secos e molhados onde os homens se reuniam mais para falar sobre nada de importante, comentar alguma graça, queixar-se da vida dura que todos ali levavam). Nada de calçamento na rodovia, que acabava sendo a única rua ao longo da qual se estendia o casario. Distanciando um do outro, porque todos tinham seus quintais, onde se cultivavam as fruteiras tropicais.

As lembranças que me ocorreram foram as dos hábitos e costumes de então. A quaresma, em toda ela, vivíamos como contritos. Os sinos tocavam numa cadência mais lânguida, como a enterro, era mais alongado o seu toque. A igreja única que havia era no outro lado do rio Araguaia.  Não tinha campanário, mas sua influência nas vidas e no quotidiano das pessoas era quase medieval. Os costumes impregnados do sentimento religioso quando não também do seu ritual da época.

Culturalmente ninguém questionava a obrigatoriedade da abstinência da carne duas vezes na semana e dos jejuns também semanais nesses quarenta dias, começados naquele das cinzas em que todos faziam questão de comparecer e ser assinalados com as cinzas em cruz na testa. “Memento homo quia pulvis est et in pulvere reverteris” dizia cerimoniosamente o oficiante, o coroinha segurando uma pequena bandeja com as cinzas. Estas uma vez passadas na testa não eram retiradas, mas respeitosamente mantidas, até que por si saíssem.

Os tempos também eram outros, tudo aquilo era impregnado de religiosidade e cada gesto tinha seu significado percebido. As imagens eram todas encobertas com um pano roxo, devendo toda atenção ser dirigida ao padecimento do Senhor Jesus. As matracas substituíam os sinos e sinetas. Só quem ouviu esse som lúgubre guarda de memória. Elas são de variadas formas, podendo ter outros feitios. Uma grossa e pesada tábua de madeira, que girada na perpendicular do braço, duas peças de ferro em marteladas, produziam um som soturno, seco. A outra matraca de minhas memórias era composta de um eixo contendo em seu extremo uma roda dentada, como uma engrenagem. Nela se acoplava outra peça que girava sobre esse eixo e uma lingueta de material mais fino e de certa flexibilidade passava rapidamente sobre os dentes da roda e produzia um som mais estridente e maçante. A função destes sons nas liturgias talvez fosse mesmo de voltar a incomodar e fazer pensar “… és pó e ao pó hás de tornar”!

Não bastasse essa atmosfera criada para a penitência e arrependimento, depois do entardecer só as frouxas luzes de lamparinas, velas e raros lampiões afugentavam as trevas e não o medo das poucas casas, nesse pacato povoado com sua quase centena de casas e casebres preguiçosamente estendidos ao longo da estrada de chão e algumas grotas causadas pelas chuvas e enxurradas. Na semana da Paixão até o céu parecia mais escuro. Os momentos principais eram a quinta-feira do lava-pés e a sexta-feira da visita ao Senhor Morto: com a imagem do Cristo ferido, sinalado de sangue, passávamos como em volta de um esquife, para beijar-lhe as chagas! Esses dias tinham uma carga maior de contrição e pesar.

Com toda naturalidade vivenciava e achava que assim mesmo devesse ser. Mesmo os castigos, reprimendas. Eram períodos de reclusão impostos, em semanas alternadas, a mim e Luiz, meu irmão logo acima de mim em idade. Tínhamos que dormir “para pensar nas coisas que havia feito”, sobre a tulha de mantimentos, num pequeno cômodo, no fundo da casa. Esses corretivos eram também para o arrependimento de diabrura que houvesse feito ou cogitado fazer. Afinal o diabo rondava e ameaçava em todos esses dias… Também até ao Senhor Jesus ele foi tentar!

Quando mais tarde em terras de Sevilha, já pai de meu filho mais velho, numa Semana da Paixão, com tempo ensolarado, por suas ruas vi a procissão do Senhor Morto. Brilhante, majestosa, tendo encapuçados com lanternas, uma banda tocando músicas fúnebres. Lá uma Verônica cantando  estendia seu pequeno lenço que a tradição diz ter enxugado piedosamente o rosto de Cristo, ficando nele impressa sua imagem. Foi nessa vez que reencontrei – talvez em suas origens – as matracas de minha infância. Hoje passados esses longos anos também vieram ocupar o entardecer de minhas memórias.

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Pode parecer estranho!

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Registros de uma vagem (III)

Depois do passeio à ilha de Paquetá, acompanhamos o grupo maior de pessoas que saía da Estação das Barcas. Já era noite, alcançamos a Assembléia Legislativa. Aguardamos um pouco e logo avistamos táxis que foram logo ocupados pelos que chegaram à frente. Abriu um sinal e  um outro foi parado por certo rapaz, sozinho que se postara uns metros à nossa frente. O carro parou, observei que houve uma conversa entre motorista e provável freguês. Nisso vejo que o taxi avança para frente vagarosamente; faço sinal que pare, este atende. Ainda de fora, indago ao motorista se ele aceitaria levar-nos até ao hotel. Concorda e logo que entramos forneço o endereço. Aguardei avançarmos um pouco pela Rua da Assembléia e ainda antes de alcançarmos a Av. Rio Branco,  eu estava um tanto intrigado de ele haver recusado um passageiro, já perguntei:

– Observei que o senhor não aceitou fazer a corrida para aquele rapaz.

– Ora, meu senhor, eu estou na praça há muitos anos e aprendi a tomar minhas cautelas. Aquele rapaz queria que eu o trouxesse até aqui na Avenida Rio Branco. Ele veio também com um jeito e tom de voz … Eu nada tenho contra ninguém, nem mesmo opino sobre o que queiram fazer da vida e na vida, mas não aceito que interfiram comigo e no que faço.

Logo pediu desculpas pela presença de minha senhora e as filhas ainda pequenas e completou sua explicação da recusa acrescentando descrição de situações por ele já vividas.

– Muitos desses rapazes ou garotos são molestos, quando não perigosos. Assentam-se sempre no banco da frente, logo passam a mão sobre o apoio do banco do motorista e iniciam uma conversa melosa, que não me agrada. Eu quando noto isso mando que retire o braço e se não sou atendido, paro e encerro ali, em qualquer ponto que esteja.

Eu achei o senhor taxista seguro no que dizia e também não me pareceu preconceituoso. Justificou sua postura.

Pensei a cena  e me vi rindo de mim mesmo, pois com muita frequência, estando no banco da frente, apoio o braço esquerdo sobre o espaldar do motorista, para me virar para trás e ver como as meninas estão ou para conversar alguma coisa. Ali ainda não havia feito isso e nem o fiz mais e não corremos o risco de ser deixados a meio do trajeto!

Completou ainda sua argumentação exemplificando situações em que pessoas mal intencionadas usam o artificio de dar endereços equivocados, porque os nomes de ruas se repetem em diferentes bairros. Um deles informou a rua dizendo que seria em Vila Isabel, ele discutiu que lá não havia tal rua, mas acedeu e continuou. Chegando em Vila Isabel em via de nome parecido ao que dissera, já não era mais lá e sim no Morro da Mangueira. Lá foram para Mangueira, era bem noite. O perigo não foi só esse, o lugar não era nada seguro e a pessoa recusou-se a pagar. Ele não questionou muito e tratou logo de voltar, alegre até por nada de pior ter ocorrido com ele. Até chegarmos ao hotel repassou uma série de recomendações para termos quando andando pelas ruas da cidade.

Já no dia seguinte, por evitar estar em locais com grande aglomeração, providencialmente deixamos a praia de Copacabana para uma segunda-feira. Como havia feito anteriormente com os demais taxistas, iniciei conversa com este senhor Antônio. Não usava bigodes, não tinha sotaque carregado, mais parecia carioca que outros, no entanto era natural da Beira Alta, disse o nome da aldeia onde nasceu, que não me recordo. Veio com os pais ainda quando criança para o Brasil.

– Sou feliz por ter vindo, nunca lá voltei. Aqui constitui minha família, tenho meus filhos brasileiros, uma é química industrial e o rapaz está bem em seu negócio.

– Mas porque o senhor não quis mais retornar ao seu país?

– Hoje nem português eu sou. Fiz aqui o serviço militar, para isso naturalizei-me brasileiro, tenho aqui todos os direitos.

– O senhor pode, então, ter a dupla nacionalidade e pegar um passaporte que lhe dê algumas regalias de viagem na Europa, disse eu provocando a continuidade da conversa.

– Os meus filhos têm esse direito sim, mas eu não porque ao naturalizar-me brasileiro, neguei o direito de ser português. Eu o fiz por uma questão de buscar melhor oportunidade aqui no Brasil. Aqui estou bem, isto já nem me preocupa. Estive em Brasília por esta razão de cidadania e passaporte, não há recurso.

Enquanto ele alongava nalguma descrição sobre o bairro de Copacabana descrevendo algumas características fiquei pensando em como a vida dá voltas, tantos indivíduos são forçados a deixar suas terras por diferentes motivos, este senhor na busca de um sonho seu, para ter as mesmas oportunidades e direitos que os cidadãos brasileiros, infligiu a si mesmo um autoexílio.

Já chegamos ao Posto 9, próximo ao Forte de Copacabana, descemos do Taxi e aproveitamos para estar à praia.

TAXIFindo estes relatos extraídos das conversas com estes profissionais, justificando que os fiz por perceber neles diferentes personalidades e histórias, todos exercendo com simpatia e honestidade o serviço de transporte seguro ao cidadão e turista. Ainda além de cicerones, também folheiam páginas de suas vidas escritas com o seu trabalho. Meu respeito e agradecimento a todos esses senhores da Comissão de Frente.

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Ilha de Paquetá

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Registros de uma viagem II

IMG_0021Na charmosa Baia da Guanabara há uma sossegada ilha, a de Paquetá. Numa rápida busca histórica fiquei sabendo que teve relevância na ocupação francesa e depois na retomada pelas tropas portuguesas. Os franceses se uniram aos Tamoios de que hoje tem o registro do toponímico na Ilha, a praia dos Tamoios. As denominações locais estão relacionadas a outras figuras históricas do período da regência e império – Praia de José Bonifácio, Solar D’El Rei, como exemplos.

D. João VI quando veio com toda a família real para o Brasil, tinha sua casa de descanso na sossegada ilha – Rua Príncipe Regente. Mesmo que as denominações das ruas não sejam as mesmas de seu início, tem interesse sua referência histórica. Diz-se que o Príncipe Regente chamou-a de Ilha dos Amores. Um romance “A Moreninha” de 1843 deu o nome a uma das praias.

A natureza curiosamente não foi muito pródiga com a ilha, pois não foi agraciada com uma fonte ou nascente. A água que lhe deu foi só a do mar. Talvez esta tenha sido a razão pela qual, mesmo sendo habitada de tão longa data, tenha permanecido pequena e pacata. Nem mesmo as duas iniciais sesmarias da ilha nunca conseguiram pujança.

Uma travessia de barcaça é o meio mais comum de chegar-se a esta ilha e poder desfrutar de suas belezas e bucólica paz. Desembarcando logo se notam algumas diferenças: as charretes puxadas por cavalos e um desagradável e destacado cheiro de urina.IMG_0022

O poder local, de sempre, proíbe a circulação de veículos motorizados na ilha, o que é bom. Também manda a norma que aos cavalos das charretes seja aplicada uma grande bolsa  logo abaixo à cauda, rabo ou outro nome mais simples e direto. As bolotas de fezes então, quando o animal ergue o dito rabo, caem direto nessa bolsa, livrando assim a via pública desse resíduo. Só é pena que a norma não estabeleça procedimento ou cuidado semelhante para o outro produto de excreção do animal e fonte de importante poluição: a urina do animal. Nem mesmo a lavagem efetuada na volta do dia na praça de desembarque soluciona ou elimina a catinga.

Fico imaginando, e em fantasia vendo, esses animais submetidos a uma sondagem vesical e respectiva bolsa coletora de urinas. Outra imagem e experiência menos traumática que visualizo:  estes animais em seu serviço diário com um tubo ou metade dele e de bom diâmetro,  ajustado ali próximo ao órgão poluidor no caso. Tubo esse contendo serragem ou areia para embeber o liquido eliminado. Ambos resíduos, tanto o sólido como o líquido poderia ser usado para produzir bom adubo. Por razão óbvia a coleta da urina fica mais facilitada em éguas, adaptando-se as mesmas bolsas de coleta de excrementos também para a urina. A sugestão é deixar a exclusividade das charretes para estas, se provado que são essas mais higiênicas e menos poluidoras.

IMG_1264Outro meio de transporte vai exigir o esforço motor do condutor, são os triciclos. Com qualquer desses pode-se percorrer a ilha toda em suas ruas de saibro.

Saímos da Ilha de Paquetá já à noitinha. Tivemos a oportunidade de apreciar o por do sol na ilha e saindo ver o belo quadro da ilha iluminada e os seus reflexos na orla.

Já cansados e adiantadas horas da noite descemos na Praça XV, estação das Barcas e logo procuramos encontrar taxi. Sem ficar de bobeira esperando num ponto, acompanhamos o grosso da turba que se dirigia pelas ruas, logo em frente à assembleia pegamos um taxi que nos levou até ao hotel. Pelo inusitado que ocorreu, deixo a narrativa desse episódio para o próximo post.

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Registros de uma viagem

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TAXIRegistros de uma viagem. (I)

Chegados ao Rio de Janeiro neste princípio de Ano 2014, descemos no Aeroporto Santos Dumont. Ainda um pouco apreensivos com o ameaçador clima de insegurança, logo eu notei que esse temor deixou-me a mim e aos meus, mais prosas. O primeiro taxista não deve ter ficado feliz de fazer um serviço com duração de uns dez minutos até ao hotel. Nada falou e pouco respondia ao que nos atrevemos a perguntar: tempo, fluxo de pessoas, elogios ao Aterro do Flamengo, a admiração das belezas num dia de céu transparente e com muito sol. Para ele devem ter soado como prosáico e enfadonho. Nas muitas vezes que utilizamos os serviços de taxi não foi essa a figura que mais encontramos. Na verdade a simpatia e o bom trato prevaleceram.
Depois de um rápido contato com a cidade e sua gente verifica-se que o seu clima humano é o de sempre, cordial. A insegurança corresponde àquela geral do país. Aos poucos a gente vai se desarmando. Muita importância nesse desarmamento e baixar da tensão têm os taxistas. Estes são os membros da comissão de frente, na terra do samba.  Destaco aqui alguns desses personagens que colaboraram para nosso bom descanso no Rio.

Do hotel até à praia da Urca levou-nos o senhor Miguel, elucidou-nos parte da história do bairro, da sua tranquilidade, comentou do seu tempo na Faculdade de Pesquisa Mineral (UFRJ). Notava-se nele o entusiasmo do jovem estudante que depois logo trabalhou muitos anos na Petrobras. Passou por alguns comentários sobre o grande potencial nacional e o caminho de sua exploração. Descreveu alguns imóveis do “Rei” RC; o abandono da antiga TV Tupy (velho Cassino da Urca), porém soube criar um ponto alto em sua narrativa.

Passávamos por uma larga avenida, frente aos prédios da UFRJ quando ele disse: Vêm aqueles ónibus enfileirados ali? – ficou a pergunta em suspenso.

Seguiu a conversa. Já sabendo que eu sou médico, elogiou os avanços e sucessos da medicina, a dedicação e generosidade nossa de discipulos de Hipócrates.

Parou próximo a uma curva e retomando a narrativa interrompida, disse: Há um ano um jovem saindo de moto por esta curva em alta velocidade acabou batendo violentamente num ônibus parado naquele lugar que mostrei. Foi muito grave.

Observei em seu semblante emoção e saiu-me a pergunta simples: Era seu filho?

– Não, disse ele, hoje tenho no peito um coração de vinte e um anos, eu fui o receptor do coração desse jovem. Há um ano bate aqui no meu peito.

Olhando em seu semblante feliz e emocionado, cumprimentei-o pelo sucesso, pela gratidão que mostrava ao jovem doador. Descemos na praça da praia vermelha, pedi o seu cartão. IMG_0036

No dia seguinte decidimos pegar o trenzinho para o corcovado. O condutor do taxi que paramos para chegar até Cosme Velho, trajava boa roupa, engravatado e com seu paletó no encosto do banco. Um senhor de boas feições, boas falas, com acento não carioca.

Pelo estereótipo do bigode, perguntei: – Por acaso o senhor é da boa terrinha, ao lado do Tejo?

– Não, eu sou da República do Ceará, respondeu ele com bom espírito.

Entabulamos logo uma conversa fácil. Contou ter vindo em criança para o Rio, ter trabalhado muito. Ganhou dinheiro e usou para bem viver. Consumiu parte do ganho e muito do seu tempo com gafieira e boa vida.

Voltou ao seu Ceará uma única vez, bem abastado, nem se recorda qual o nome da moeda da época. Dinheiro suficiente para comprar uma casa ou um apartamento.

IMG_1094Mora no que é seu, tem seu carro para trabalhar quando quer e com prazer. Fez um investimento num imóvel que aluga em Santa Tereza e pensa conseguir repetir isso, mesmo com o aumento do preço do imóvel na cidade.
– Trabalho para quem quer não falta, mesmo que os taxis estejam fazendo filas esperando por passageiros! – disse o nosso condutor parando para descermos frente à estatua do Eng. João Teixeira Soares, na estação Cosme Velho para o bondinho do Corcovado.

Guardei na memória este simpático senhor, bom pé de valsa e boa vida saído pobre de Crateús no Ceará, não dispensa o trabalho e o faz com ar feliz!

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Uma tarde com o poeta.

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Ah! se todos fossem iguais a você!

Coimbra, transcorria o ano de 1968. Estudantes brasileiros, em virtude de um acordo cultural firmado entre o Brasil e Portugal, estávamos presentes nas três universidades portuguesas, com uma predominância na velha Coimbra. Provindos dos quatro cantos do Brasil, a grande maioria sem vinculo familiar com a terra lusitana, dispersos nos vários cursos e o maior número na Faculdade de Medicina. Eu havia chegado em 1967 outros poucos no ano anterior.

Desse lado de cá do Atlântico o Brasil passara recentemente por golpe militar. A pasta da Educação comandada pelo também militar Jarbas Passarinho não tinha solução para a crônica e crescente falta de vagas nas universidades. O pano de fundo de insatisfação da sociedade que questionava o regime militar, antevendo e pressentindo seus atos repressivos só assinalo aqui, para um contexto temporal.

Noutro lado, Portugal debatia-se na guerra de dominação de suas colônias. Sua juventude ia se extinguindo ou mutilando-se em terras de África. O salazarismo continuado por Marcelo Caetano se travestia com algum ar de modernidade;  nas cidades e aldeias o que mais se via eram mulheres novas e idosas enlutadas, de lenços e xailes negros: as “viúvas”  de noivos, maridos e filhos mortos em Angola, Guiné e Moçambique. Os programas de televisão, estatal (RTP) correspondiam aos horários das três principais refeições, alongando-se pela noite até pelas 22 horas ou pouco mais. Bancos e comércio encerravam para o almoço. Ainda nesses hábitos as moças raramente trajavam outra coisa que não fossem vestidos ou saias. Após algum tempo já se viam as calças jeans e no verão alguma minissaia. Nos quartos de aluguel para estudantes ou nas pensões banhos frios eram liberados já os banhos quentes eram limitados, se mais que dois os valores seriam outros!

Os mais de 300 jovens universitários brasileiros participando ativamente da vida acadêmica, frequentando a única cantina universitária e seu convívio com as instalações da Associação Acadêmica, além das adjacências da Praça da República, Av. Ferreira Borges e a Baixa de Coimbra, essa presença mexeu e muito com os hábitos e rotinas da cidade. Alguns atos de desvios,  certo que ocorreram e foram motivo de escândalo.

Já os brasileiros haviam organizado, ordeiramente, algumas festas como Passagem de ano e Carnaval. No ambiente acadêmico e das “repúblicas” estávamos bem inseridos e sem desentendimentos. Mas, no imaginário geral e no atavismo de alguns costumes e preconceitos, os modos e maneiras dos brasileiros começaram a incomodar. Por outro lado, nós passamos a sentir incomodados com comentários em pequenas notícias, secção de cartas de jornais, com ilações e supostos atos, não individualizados, tidos como perturbadores dos bons modos. Foi ai então que os mais atentos ao contexto da vida acadêmica e urbana decidiram fazer algo para diminuir essa dissonância. Conseguimos sensibilizar o adido cultural –  à época o diplomata Otto Lara Rezende – que compareceu em Coimbra e no Café “A Brasileira,”  à rua Ferreira Borges, expusemos  a ele os fatos. Lembro-me que entre nós estava a “tia” do colega Jéssie, pessoa influente, por intermédio de quem foi possível esse encontro, com a autoridade diplomática. Fruto disso: os noticiários locais fizeram respeitosas notas sobre o fato, o diplomata sensibilizou-se prometendo apoio à nossa presença naquela Universidade, exaltou os aspectos do convênio e o quanto nós próprios, estudando ali, tínhamos a ganhar para nossas vidas.

Outro desdobramento advindo dai – e foi o que mais ajudou – logo uns dois meses depois, compareceu na Associação Acadêmica nada mais nada menos que Vinicius de Moraes e Toquinho, que nos brindaram a todos cantando e declamando sua obra, ali mesmo nos bancos do Convívio da Acadêmica. Hoje reverencio essa imagem sua, sem tietagem, sem cachê; pura solidariedade por seus patrícios, que distantes necessitavam de apoio e ele com seu nome e arte esteve ali por mais de 4 horas num espetáculo que só nos custou o pouco Uísque que consumiu e alguma água mineral. Foi para mim e para muitos brasileiros e portugueses um evento inesquecível.

Pelos conselhos do samba da bênção, pelos que não respeitaram a regra 3,  Muito obrigado poeta. Ah se todos fossem iguais a você! Pela surreal “Casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada.”… Pelas galantes juras de Soneto da fidelidade! Mais uma vez obrigado!

No seu centenário compartilho aqui a lembrança desse ato de generosidade e amizade pelos jovens sonhadores que éramos; melhor: ainda somos.

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Posta restante

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Já trouxe aqui texto de Moacyr Scliar, num conto. Hoje refletindo, com alguma pausa encontrei novamente no autor a narrativa de um relato sensível e de boa observação de almas e comportamentos.

O escritor também foi professor de medicina. Dai, talvez, deriva um pouco a força de seu estilo e sua capacidade de captar o que não é demonstrado. O médico não está treinado somente para ouvir, solicitar exames, explorar sinais indiretos de sofrimento, palpar, mas, sobretudo: observar desde a fisionomia, o modo o gestual e atitudes. Vejam como isto pode ser identificado neste pequeno conto que transcrevo, extraído do livro Contos reunidos, editado pela Companhia das Letras, SP, em 1995.

POSTA RESTANTE

Certo dia, levantei-me, lavei-me, penteei-me, vesti-me, tomei café e fui à casa de nossa vizinha, a viúva Paulina.

A viúva Paulina era uma senhora de idade, muito boazinha. Por isso, e também porque era inválida (andava de cadeira de rodas), eu costumava prestar-lhe pequenos favores, tais como: cortar a grama de seu jardim, levar seu cão Pinóquio a passear e colocar suas cartas no correio.

Eram muitas, essas cartas. A viúva Paulina era assinante de uma publicação que relacionava missivistas do mundo inteiro. Assim, ela escrevia para países tão remotos quanto Sri Lanka, Japão e Tunísia. Cartas e mais cartas; gastava boa parte de seu modesto rendimento em selos. Com escasso resultado; só ocasionalmente recebia uma resposta. Mas isso não a desanimava; pelo contrário, escrevia cada vez mais. Nisso, segundo dizia, estava sendo fiel à memória do marido, um médico humanitário que morrera sonhando com um mundo unido. Legara à viúva Paulina uma mensagem de amor. E pouca coisa mais: uns livros velhos, um carro antigo, que ela vendera, um reduzido pecúlio. É que a maioria dos seus pacientes, gente pobre, não lhe pagava; um fato que a viúva não deixava de lembrar com emoção. Entre esses clientes estavam meus pais. De modo que na minha ajuda à velha senhora, havia também um componente de gratidão.

Passei, pois, na casa da viúva Paulina. Ela me esperava no jardim, sorrindo como de costume. Perguntou-me como ia no colégio, deu-me um pedaço de cuca que ela mesma tinha feito. E entregou-me uma carta. Uma só? – estranhei. É, uma só, ela respondeu, me olhando fixo. Peguei a carta e o dinheiro, despedi-me e fui embora.

Como de costume, dirigi-me para o parque. Joguei fora a cuca – estava horrível –, sentei-me num banco e, como de costume, abri a carta. Em geral era uma leitura que me divertia.

Nesse dia, porém, tive uma surpresa.

A carta era dirigida a mim. No envelope estava um nome qualquer, e um endereço nos Estados Unidos, mas a carta, a carta mesma, começava com um Prezado Chico. Chico sou eu. É o meu apelido.

E continuava a viúva.  Nunca esperei uma coisa dessas de você, Chico. Você por quem eu tinha tanta estima.

O caso é que descobriu tudo: que eu não botava as cartas no correio, que embolsava o dinheiro dos selos. O novo agente postal, que acontecia ser seu parente, lhe contara que eu nem ia à agencia. E concluía a viúva. Pensar que confiei em você. Pensar que eu lhe entregara minhas escassas economias, quando podia ter investido esse dinheiro. Podia ter comprado dólares, Chico.

Amassei a carta, joguei-a fora. Eu lembraria disso, quando chegasse a época de meus primeiros investimentos.

Moacyr Scliar   Moacyr Scliar

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Drumond

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drummond1Carlos Drumond de Andrade (Itabira, Minas Gerais em 1902 e falecido na cidade do Rio de Janeiro em 1987) é um dos maiores expoentes da literatura brasileira. Como ele mesmo define e decide neste seu poema mãos dadas não se dedicará a cantar o passado, mas seus verso sim terão um engajamento com o dia a dia, com a realidade, cantando a vida numa forma simples, coloquial até.

Convido a acompanhar nestes poemas que escolhi e que bem representam a obra do grande poeta os que tem prazer da leitura. Quem quiser também ouvir na voz do próprio poderá encontrar aqui.

MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos,  mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drumond de Andrade

Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drumond de Andrade

 

Drumond - RioConsolo na praia

Vamos, não chores
A infância está perdida
Mas a vida não se perdeu
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras
Em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas e o humor?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
Murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
Precipitar-te de vez nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.  

Carlos Drumond De Andrade  – Antologia poética

 

SOCIEDADE

O homem disse para o amigo:
– Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.

O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.

O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.

Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
– Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.

No caminho o homem resmunga:
– Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: – Que idiota.

– A casa é um ninho de pulgas.
– Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.

E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pôde retribuir a visita.

Carlos Drumond de Andrade

Transformar em poemas a constatação de fatos do dia a dia, sem falsa moral, como um fotografo, até mesmo no título conciso: “Quadrilha”; descrevendo sem delongas e finalizar com uma cena inesperada. Bom humor é uma marca de Drumond.

As desilusões amorosas, as frustrações, os desencantos, as perdas, as injustiças suportadas e timidamente contestadas, o não herói abatido: “dorme”, isso passa!

Quem não conhece um perfil do casal visitante bem tratado, resmungão, mas sempre retorna e nem dá espaço para o outro também visitar!? Poesia atual, poesia crônica, leve. Extraordinariamente agradáveis estas palavras de Drumond em todos esses poemas.

Fontes http://drummond.memoriaviva.com.br

 

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Poetas e Poesias

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Poetas sempre cantam e decantam sentimentos. O amor e o desamor, o engano e o desengano, a timidez camuflada que impede se declarar à amada. As suaves metáforas que nos fazem vagar na cadência e sonoridade das palavras. Com rimas ou sem elas. Os elementos: Vento, Mar, Fogo frequentam sempre a imaginação e os versos dos bardos,  menestréis e poetas.

Luiz de Camões (Lisboa: 1524 – 1580) reverenciado como o mais ilustre escritor português de sua época, fez brilhar nosso idioma sendo até hoje reconhecido. Foi movido por uma alma inquieta, deixou vasta obra, numa sequência de desafortunada vida. Hoje busco dele alguns sonetos e algo mais que inesperadamente vi a ele relacionado ou no tema ou na inspiração.

Tanto de meu estado me acho incerto,
 Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.
 
É tudo quanto sinto – um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
 
Estando em terra, chego ao céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.
 
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

E diz de si mesmo, clamando pela amada e lamentando seus erros e desvarios.

Erros meus, má fortuna, amor ardente
 
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.
 
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
 
Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa (a) que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.
 
De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

 

Augusto Frederico Schmidt exalta o autor dos lusíadas em um soneto seu lembrando das águas, do mar, do vento e também de “dessa palpitação de juventude”.

Poeta maior da raça peregrina,

 
Poeta maior da raça peregrina,
Como teu canto é vivo e prodigioso,
Que o vento antigo treme e vibra ainda
No veleiro que a Ulisses conduzia,
 
Pelos mares ilustres celebrados!
Poeta da aurora de rosados dedos,
Que Aurora nasce da tua voz tão fresca
Como as águas à luz do claro dia!
 
Foi o mar que aos teus cantos deu o alento
E a veemência de forças indomáveis,
Que flutuam no tempo, eternamente.
 
Foi o mar, que chamaste de infecundo,
Que soprou nos teus versos essa flama
E essa palpitação de juventude.
 

As seguintes estrofes de O lutador de Manuel Bandeira, podem se aplicar mesmo àquele poeta que acompanhou e cantou os feitos fantásticos de seu povo, numa fase de suposta glória.

O lutador
 
Buscou no amor o bálsamo da vida,
Não encontrou senão veneno e morte,
Levantou no deserto a roca forte
Do egoísmo, e a roca em mar foi submergida!
 
Depois de muita pena e muita lida,
De espantoso caçar de toda sorte,
Venceu o monstro de desmedido porte
– A ululante Quimera espavorida!
 
Quando morreu, línguas de sangue ardente,
Aleluias de fogo acometiam,
Tomavam todo o céu de lado a lado.
 
E longamente, indefinidamente,
Como um coro de ventos sacudiam
Seu grande coração transverberado!
 (30 de setembro – 1.0 de outubro de 1945)

 

Fontes:  Versos e alguma prosa de Luiz de Camões Ed. Fundação Calouste Gulbenkian; 10 de junho 1977 – Lisboa
Augusto Frederico Schmidt – Sonetos, Rio Gráfica Ed. Ltda. Rio de Janeiro – Abril de 1965.
Manuel Bandeira – Melhores Poemas – Seleção de Francisco de Assis Barbosa (12.a Ed) 1998 – Global Editora.
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As mãos de meu pai!

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Um pensador e dono de uma arte poética invejável é o gaúcho Mário Quintana. Cultuava e cultivava a palavra e seus efeitos, com simplicidade e surpresa como nestas curtas estrofes;  seja até mesmo no título.

Mario QuintanaPoeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

(Prosa e Verso, 1978)

Em reflexão sobre a morte, com graça escreve:

“Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas… Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida – a verdadeira – em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira”.

“A morte é a libertação total: a morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapatos”.

Mário Quintana por ele mesmo:  – “Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.

Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu… Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim.

Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo – que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.” (Texto escrito pelo poeta para a revista Isto É de 14/11/1984)

Lendo seus poemas vi e senti em suas palavras a figura de meu próprio pai, de mãos calejadas e firmes. Calos e suor foram seus dias, de poucas palavras e muito saber, se vivo ainda leria com carinho para ele. Trago os dois compartilhando com vocês,

As mãos de meu pai

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis meu pai

sobre um fundo de manchas já da cor da terra

– como são belas as tuas mãos

pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos…

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida.

E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta,

uma luz parece vir de dentro delas…

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste alimentando na terrível solidão do mundo,

como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?

Ah, como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!

E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas…

essa chama de vida – que transcende a própria vida…

e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.

Mário Quintana (Poesia Completa, Rio, Nova Aguilar, 2005)

 

Essa outra extraída do mesmo livro:

lareiraInscrição para uma Lareira

A vida é um incêndio: nela

dançamos, salamandras mágicas.

Que importa restarem cinzas

se a chama foi bela e alta?

Em meio aos toros que desabam,

cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,

na própria luz consumida…

Mário Quintana (Poesia Completa, Rio, Nova Aguilar, 2005)

 Editado por Francisco Sales 

fontes: a magia da poesia

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para apreciar

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Dentro do objetivo deste espaço – posto aqui dois delicados poemas de Cecília Meireles – convidando aos leitores que se deliciem com as palavras, as lembranças e as imagens que eles trazem.

Sobre a escritora eis o que ela mesma marca – em releituras – como importante:

Cecilia Meireles“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.

 (…) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.

(…) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.”

 

praiaInscrição na Areia

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

Cecília Meireles    (1901/1964)

Cançãovelas

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

concha do marChorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecilia Meireles  (1901/1964)

 

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Pasárgada

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O ano se findando, os votos renovando, coração repleto de expectativas e de desejos, almejamos sempre o bom e o bem, o justo e a justiça, a paz universal e a fraternidade.

feliz 2013! feliz ano novo

Após anos de “globalizadas” dificuldades, da queda de impérios, de reinos de outros tempos… quando tantos perdem, revoltam-se por benefícios retirados: Portugal, Espanha, Itália, Grécia! Junto-me ao poeta Manoel Bandeira e deixo aqui meu bilhete, sem endereço, mas com um destino: Pasárgada.

Manuel Bandeira (*1886  +1968) descreve em sua poesia esse lugar de sonhos, onde tudo se nos apraz; podemos aí comemorar e sem grande esforço realizar nossos votos e confraternizarmos:

sitio arqueológico de Pasárgada

sitio arqueológico de Pasárgada

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA!

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
 
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz

Tumba do Rei Ciro, o grande, em Pasárgada; com o seguinte epitáfio: Ó forasteiro, quem quer que sejas, de onde quer que venhas, porque sei que virás, sou Ciro, que fundou o Império dos Persas. Não tenha rancor de mim por causa dessa pequena terra que cobre meu corpo

Tumba do Rei Ciro, o grande, em Pasárgada; com o seguinte epitáfio: Ó forasteiro, quem quer que sejas, de onde quer que venhas, porque sei que virás, sou Ciro, que fundou o Império dos Persas. Não tenha rancor de mim por causa dessa pequena terra que cobre meu corpo

Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
 
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau de sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
 
Em Pasárgada tem tudo

a caminho, rompe o sol de um novo dia!

a caminho, rompe o sol de um novo dia!

É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
 
 

Manuel Bandeira

 

 

 

 

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Um conto de Moacyr Scliar

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Um dos interesses desta página é trazer tema que sirva para uma reflexão, ou simples lazer de uma boa leitura, com textos extraídos de nossa literatura. Transcrevo na íntegra um conto do livro Contos Reunidos de Moacyr Scliar, editado por Companhia das Letras, SP, 1995.
Escreve com uma incrível dose de fantasia e humor. Faça bom proveito e reflita como é a alma humana!
!

“Bandido

Meu tio tinha cara de bandido e era graças a isso que ganhava a vida. Trabalhava para um clube de Brasília que se gabava de fornecer aos sócios diversões inusitadas. Tais como os assaltos simulados, a cargo do meu tio.
A coisa funcionava da seguinte maneira. Ao cair da noite ele se dirigia para o estacionamento do clube e ali ficava, meio oculto entre as árvores. Quando um sócio aparecia, meu tio saía de seu esonderijo e, de revólver de plástico na mão, gritava: quieto, isto é um assalto. O sócio – tudo previamente combinado – levantaria os braços, mas, meu tio se aproximando, ele lhe daria um golpe no pulso, fazendo o revólver voar; e aí daria um soco na barriga de meu tio, que se curvava gemendo – apenas para ser atingido por outro devastador murro no queixo. Tombava como uma árvore abatida, seria chutado pelo sócio e ficaria estendido no asfalto, sangrando como um porco. O sócio, limpando as mãos e bradando alto e bom som: que isso te sirva de lição, entrava para jogar cartas.
Meia hora depois meu tio se levantava e, cambaleando, entrava no clube pela porta de serviço. Ia até o ambulatório, onde o enfermeiro lhe fazia um curativo nos ferimentos, e depois passava na caixa para receber o cachê – não muito alto, mas suficiente para que sobrevivesse com dignidade. O importante é isso, ele nos dizia, dignidade. Mostrava-nos com orgulho o revólver: vejam que imitação perfeita, fui eu mesmo que escolhi. Nesse momento eu surpreendia em seu olhar um estranho brilho, selvagem e inquieto ao mesmo tempo. Só muito mais tarde descobri a razão: meu tio temia que algum sócio novo, mal informado pelo clube, lhe entregasse tudo, carro, dinheiro, mulher. Tanta ansiedade lhe causava essa perspectiva que veio afinal a se matar. Com um revólver de verdade que guardava em casa, não se sabe exatamente por quê. Medo de ladrões talvez.”

Moacyr Scliar (1937 – 27/02/2011)

 

editado por  Francisco Sales   em 25 de novembro de 2012

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VENTOS

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A leitura amena nos encaminha o pensamento, a fantasia a parágens diversas, traz conforto;  é só deixar fluir.

Eis um  texto do poeta Augusto Frederico Schimidt, do seu livro Sonetos – Rio Gráfica Editora Ltda, 1965

“Ventos que recebeis os sons dos sinos

E provocais, com o vosso rude afago,

A música selvagem das procelas;

Ventos da noite, que beijais as flôres;

Ventos que recebeis as graves harmonias

Da tarde em flor, ansiosa e palpitante;

Ventos que surpreendeis, na hora indecisa,

O canto das auroras inocentes;

Ventos que balançais, no alto das árvores,

Os frutos ainda em flor e os débeis ninhos;

Ventos que visitais os túmulos perdidos;

Ventos do mar, das velas, dos caminhos:

Vossa música incerta é a minha música,

Sois irmãos de minha alma inquieta e errante”.

 

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ouvindo o mar

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Papel de Parede - Farol Godrevy e Mar Agitado, Cornwall, Inglaterra

No mar, não se ouvem só gaivotas, ouve-se a ele mesmo no vai e vem de ondas, que terminam no fluxo e refluxo da praia ou mais forte e vigoroso rebentando em rochas, diques dos cais.

Mar inspiração de tantos poetas. Mar que separa, mar que une.   Mar das saudades de tantas partidas e chegadas.

Escolhi versos  de uma poetisa  portuguesa, leiam (ouçam)

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.
Sophia de Mello Breyner Andresen

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