dar à luz!

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24 de novembro de 2012 às 18:42

 

Há sempre um aspecto polêmico sobre a decisão de como terminar uma gravidez. Isto implica desde questões de ordem técnica da obstetrícia, da vontade da gestante, da disposição e vontade do médico pré-natalista, de quem arca com as despesas, etc.. Não é só o ter a vontade, o desejo e ânimo para que a gravidez termine em parto normal, que assim ocorrerá.
Como todo relacionamento médico paciente é necessário que haja empatia entre quem recebe o atendimento e quem presta o atendimento, para que se chegue a um resultado satisfatório. O médico (obstetra) tem a formação científica para dominar o assunto, para isto estudou, se especializou; tem experiência adquirida na sua vivência e a repassada por orientadores na fase de especialização. Só que isto tudo passa por um filtro individual na hora da decisão, que é a sua visão da vida e do mundo, também seus anseios como obstetra. Sem rodeios pode-se sintetizar: o rótulo que se dá a parto normal, é porque é o normal.
A gravidez é fase dum projeto que termina com o dar à luz. Este conceito traz embutido o fato verdade que o feto encontra-se no ventre materno de tudo protegido mas no escuro, sua vida é participação com a vida da mãe e por ela servida. No momento que vem à luz, há a separação, com seus desconfortos iniciais, do ar penetrando os pulmões, dos sons, da luz, corta-se a ligação materna com uma tesourada no umbigo. É na verdade um marco na vida (a partir deste dia contamos nossa existência, desprezando aquele período compartilhado com a mãe).
O tecnicismo, herdado da fase de sua formação, de algumas opiniões, o não aceitar situações que podem fugir de seu próprio controle é que a meu ver pode embasar o posicionamento de alguns obstetras que não são favoráveis ao parto normal.
Graças a Deus que a assistência materna e fetal conseguiu grandes avanços a ponto de hoje nos admirarmos do que as técnicas de fertilização, a assistência à gravidez de risco, a neonatologia, obtêm resultados tão exitosos, proporcionam a tantos casais a alegria de um filho.
O parto normal é a etapa final. Quando as dores já fizeram o máximo, tudo está na iminência de acontecer. Então o que dificulta esta caminhada? Onde surge o obstáculo que explique o final não esperado? A natureza é que tem o controle do tempo para que isto ocorra. Nesse compasso de espera surge a necessidade da assistência e acompanhamento ao trabalho de parto. Isto demanda um tempo incerto e a capacidade de ser observador atento e paciente do conjunto gestante-filho-família pelo obstetra. Esta é uma variável que por vezes tem mais peso que a própria avaliação clinica da evolução ou progressão do trabalho de parto. Alguns fantasmas, medos e tudo que povoa o imaginário do dar à luz. Em resumo: parto normal, a parturiente além das condições e predispoção tem querer muito, porque se não passa por todos os transtornos dum “longo” trabalho de parto e acaba se rende à cesariana.
Para dirimir dúvidas éticas o CFM (Conselho Federal de Medicina) passa a entender que este é um ato profissional distinto daquele de receber o bebê quando vem à luz, sendo então justo e definido que deva ser o profissional por isso remunerado.
Com essa resolução obstetras sentir-se-ão menos coagidos pela pressa de resolver com uma cesariana o que poderia vir a ser um parto normal. As agremiações de assistência médica – planos de saúde – terão de encontrar uma saída para não entrar em conflito com seus clientes que pagam e os que realizam a assistência. É um primeiro grande passo para se reduzir o índice de cesariana na rede de saúde complementar que hoje beira os 90%!
Pasmem: o SUS de há anos remunera o procedimento de assistência ao trabalho de parto diferentemente do procedimento cesariana!
Queira Deus, os sindicatos médicos e associações da especialidade de obstetrícia se organizem e defendam a permanência constante de médico especialista em todas aqueles Hospitais e Maternidades que queiram dar assistência a quem vai dar à luz. A SGGO (sociedade goiana de ginecologia e obstetrícia) divulga no seu boletim de n.o 10 (http://www.sggo.com.br) seu posicionamento claro sobre a questão. Parabéns aos seus diretores por isto.

Francisco Sales

24 de novembro de 2012

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Plantonista do HMI Goiânia de 1986 a 2013.
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Uma resposta a dar à luz!

  1. Estou entrando no sexto mês de gestação, fazendo tudo o que está ao meu alcance para que meu filho nasça naturalmente. Meu médico é consciente da importância de um final feliz independente de parto normal ou cesariana, mas sabe que o “normal” é o parto “normal”. Sou privilegia por isso e estou na torcida de que uma saída seja encontrada brevemente para que todas as mulheres tenham a chance de contar com uma assistência médica de obstetrícia mais disposta a investir no trabalho de parto, investir no parto natural.

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