do equilíbrio e do desequilíbrio – 1

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Sobre o tema homeopatia apresentarei páginas sequenciadas, tentando buscar informar os seus princípios para uma melhor compreensão, sem perder as ligações da evolução da ciência médica.

Em texto anterior comemorativo da homeopatia no Brasil apresentei a discussão de que esta é uma ciência, não é empírica e seu processo é de experimentação e observação meticulosa dos fenômenos.

O conhecimento humano evolui. O saber de hoje pode ser melhor compreendido com uma visão histórica dele próprio. O pensador Augusto Comte afirma com muita verdade em uma de suas máximas “Não se conhece completamente uma ciência enquanto não se souber da sua história“.

Faço aqui um apanhado sobre o surgimento da organização do conhecimento homeopático, da sua origem e fundamentação. Não quero aqui dizer que desde tempos antigos surgiu a homeopatia, mas que a ciência de curar admite desde sempre dois princípios basilares distintos de atingir esse objetivo nobre que cabe ao artista da cura.

Hippocrates e a escola de CósHipócrates (460-370 a.c.) era um “Asclepíade” – certo agrupamento familiar e religioso que dominava o conhecimento e a  prática de atos de atenção à saúde. Reconhece-se nele o formatador do saber da cura, nos seus dias e para a posteridade. Seus estudos advêm da Babilônia e Egito. Fixou-se em Cós onde havia um templo dedicado a Esculápio – na mitologia grega o deus da medicina. Ele com seus seguidores constituem uma escola médica em que era ensinado que a cura processa-se tanto pelo combate dos sintomas (ação contrária), como por uma ação correspondente ao que trouxe a doença (ação semelhante). Em qualquer dessas opções, o médico – observador – é um auxiliar, que avalia, identifica os sintomas e o estado do doente. O seu papel é interferir unicamente para proporcionar ao doente as condições suficientes e certas para encontrar a cura. Hipócrates afiançava que o próprio organismo se reequilibra e cura-se (vis medicatrix naturae – força da natureza que medica -). Dá-se a ele o título: “pai da medicina”.

Para ele também o nosso corpo não é um conjunto de órgãos, mas uma unidade viva. Para a cura é preciso conhecer o homem, pois sua natureza o regula e o harmoniza. Conhecendo sua natureza individual e forma de reagir é como pode o médico auxiliar na cura.  Hipócrates sistematizou seus conhecimentos e ensinos para a prática da medicina nos denominados “aforismos”.

Procure acompanhar-me para um entendimento do que é “curar-se”. Estando vivos eliminamos, gastamos energias, vem o cansaço. A sede, a fome, o sono, são os alertas, que o organismo tem, para que supramos as necessidades e conservemos o bem estar.  É uma linguagem da natureza advertindo sobre o que precisamos. Quando advém o mal estar, um desarranjo, a dor, perversões ou males que ameaçam a vida, chamamos a estes sinais de sintomas . É, pois, a própria natureza a sinalizar as necessidades para o retorno ao equilíbrio. A primeira linguagem está nos instintos, na fisiologia. Já os sintomas são a segunda linguagem, aquela que cabe ao observador atento identificar, reconhecer (análise racional).

Todos já experimentaram situações de algum embate na saúde em que delas se saíram muito bem, sem maiores consequências. Isto corresponde ao indivíduo com boa imunidade, com seu físico e psique bem equilibrados. Pode até sentir alguns achaques, temores, tristezas num momento e depois restabelece. Retorna à homeostasia num reajuste dinâmico. Eis aqui a “vis medicatrix naturae” – força da natureza que trata – de Hipócrates. É inerente à própria natureza o buscar manter-se hígida. O sangue é fluido, mas caso haja necessidade – o corte, o trauma – ele coagula e estanca o sangramento.

Bom, presume-se que a humanidade em certo tempo até fosse mais sadia. As doenças mais graves referidas em livros antigos, ainda hoje nos acompanham em nossos dias: a lepra, a tuberculose como exemplos. Aparentemente romântica, esta ideia é procedente tanto para quem admite o criacionismo, quanto pelos defensores da evolução – sobrevivência do mais forte, do mais capaz que transmite seus dons e dotes à sua prole. Terão as migrações, as expansões, as dominações, as guerras desde a Mesopotâmia, Egito, Macedônia, Roma etc., determinado mudanças na saúde dos povos? Por certo que sim.

O Prof. José Rosenberg (Boletim de Pneumologia Sanitária – janeiro 1999) afirma que em Tebas encontraram-se múmias de jovens faraós com evidentes sinais de lesões de tuberculose; datação de 3000 AC. Para essas doenças as medidas eram mais de segregação ou banimento, sempre também tidas como castigo, configurando o próprio pecado, a maldição.

Os textos bíblicos narram inúmeras curas operadas por Cristo, limpando e sarando quem padecia. A idade média com o todo obscurantismo, não propiciava espaço para o  progresso do conhecimento médico e o crescimento dos aglomerados urbanos, sem hábitos de higiene, favoreciam o aparecimento de doenças. Se lembrarmos de que os romanos se distinguiam pela edificação de “termas” e banhos públicos muitos séculos antes; pode-se afirmar que esse período foi em muitos sentidos um retrocesso na história da humanidade.

Para exemplificar e como curiosidade sobre o que agora converso – doença e cura – faço aqui referência a uma prática de séculos: colocava-se uma moeda de ouro com a esfinge do rei sobre a ferida tuberculosa (escrófula) acompanhado das palavras sacramentais – “o rei te toca e Deus te cura”. A nobreza ia ao beija-mão do rei, os pobres tuberculosos – excluídos – iam ao toque da moeda com a esfinge do rei! Nem estes nem aqueles tomavam banhos suficientes!

GalenoSe alguma área da medicina neste longo período evoluiu foi o conhecimento de práticas cirúrgicas. Nisso as guerras sempre foram ótimos tempos para esse avanço, até mesmo em nossos dias. Durante séculos depois de Cristo foi Galeno, de Roma (126 D.C.) outra grande influência na medicina, no conhecimento anatômico e também na fisiologia. Ele fazia dissecções em macacos e assim os estudava. Algumas de suas observações e conclusões só foram abandonadas no século XVI. É dele a descoberta de que pelas artérias passa o sangue e não ar!

O quadro no século XVII e XVIII era pouco diferente, mesmo que o conhecimento em outras áreas tenha sido brilhante (artes, filosofia, mecânica, navegação, astronomia, etc.) a medicina era predominantemente não experimental e agressiva. Arraigada ainda em procedimentos de limpeza dos humores, de catárticos e sangrias. É preciso separar aqui o conhecimento médico: em clínico e em cirúrgico, nesse tempo. Por essência o clínico precisa conhecer os sinais, os sintomas e o medicamento para aplicá-lo e o que dele esperar (seus efeitos).

Continua em do equilíbrio e do desequilíbrio 2.

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Plantonista do HMI Goiânia de 1986 a 2013.
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Uma resposta a do equilíbrio e do desequilíbrio – 1

  1. João Ogando disse:

    Faz tempo que queria aceder a um conhecimento integrado, ameno e o mais completo possível da homeopatia, a que recorri por conselho de meu pai, como forma de debelar um câncer que tive há quase três décadas.Vivendo num país – Portugal – em que a homeopatia é mal divulgada e, até, perseguida pela prática corporativa dominante, aguardava uma luz que agora chegou nesta abordagem. Agradeço ao autor e fico esperando a sequência. Bem haja!

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