Matracas.

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Nestes dias que fiquei mais parado em casa, urdindo uma coisa ou outra, muitas cenas dos meus tempos de infância no interior repovoaram minha mente.

Corriam os anos 50, na denominada Ivapé, situada do lado goiano, às margens do Rio Araguaia. Muito pequena, com algumas poucas casas comerciais: a Casa Mineira do senhor Menezes, a loja do Dandico e o “bolicho” do Coló –  (pequena venda de secos e molhados onde os homens se reuniam mais para falar sobre nada de importante, comentar alguma graça, queixar-se da vida dura que todos ali levavam). Nada de calçamento na rodovia, que acabava sendo a única rua ao longo da qual se estendia o casario. Distanciando um do outro, porque todos tinham seus quintais, onde se cultivavam as fruteiras tropicais.

As lembranças que me ocorreram foram as dos hábitos e costumes de então. A quaresma, em toda ela, vivíamos como contritos. Os sinos tocavam numa cadência mais lânguida, como a enterro, era mais alongado o seu toque. A igreja única que havia era no outro lado do rio Araguaia.  Não tinha campanário, mas sua influência nas vidas e no quotidiano das pessoas era quase medieval. Os costumes impregnados do sentimento religioso quando não também do seu ritual da época.

Culturalmente ninguém questionava a obrigatoriedade da abstinência da carne duas vezes na semana e dos jejuns também semanais nesses quarenta dias, começados naquele das cinzas em que todos faziam questão de comparecer e ser assinalados com as cinzas em cruz na testa. “Memento homo quia pulvis est et in pulvere reverteris” dizia cerimoniosamente o oficiante, o coroinha segurando uma pequena bandeja com as cinzas. Estas uma vez passadas na testa não eram retiradas, mas respeitosamente mantidas, até que por si saíssem.

Os tempos também eram outros, tudo aquilo era impregnado de religiosidade e cada gesto tinha seu significado percebido. As imagens eram todas encobertas com um pano roxo, devendo toda atenção ser dirigida ao padecimento do Senhor Jesus. As matracas substituíam os sinos e sinetas. Só quem ouviu esse som lúgubre guarda de memória. Elas são de variadas formas, podendo ter outros feitios. Uma grossa e pesada tábua de madeira, que girada na perpendicular do braço, duas peças de ferro em marteladas, produziam um som soturno, seco. A outra matraca de minhas memórias era composta de um eixo contendo em seu extremo uma roda dentada, como uma engrenagem. Nela se acoplava outra peça que girava sobre esse eixo e uma lingueta de material mais fino e de certa flexibilidade passava rapidamente sobre os dentes da roda e produzia um som mais estridente e maçante. A função destes sons nas liturgias talvez fosse mesmo de voltar a incomodar e fazer pensar “… és pó e ao pó hás de tornar”!

Não bastasse essa atmosfera criada para a penitência e arrependimento, depois do entardecer só as frouxas luzes de lamparinas, velas e raros lampiões afugentavam as trevas e não o medo das poucas casas, nesse pacato povoado com sua quase centena de casas e casebres preguiçosamente estendidos ao longo da estrada de chão e algumas grotas causadas pelas chuvas e enxurradas. Na semana da Paixão até o céu parecia mais escuro. Os momentos principais eram a quinta-feira do lava-pés e a sexta-feira da visita ao Senhor Morto: com a imagem do Cristo ferido, sinalado de sangue, passávamos como em volta de um esquife, para beijar-lhe as chagas! Esses dias tinham uma carga maior de contrição e pesar.

Com toda naturalidade vivenciava e achava que assim mesmo devesse ser. Mesmo os castigos, reprimendas. Eram períodos de reclusão impostos, em semanas alternadas, a mim e Luiz, meu irmão logo acima de mim em idade. Tínhamos que dormir “para pensar nas coisas que havia feito”, sobre a tulha de mantimentos, num pequeno cômodo, no fundo da casa. Esses corretivos eram também para o arrependimento de diabrura que houvesse feito ou cogitado fazer. Afinal o diabo rondava e ameaçava em todos esses dias… Também até ao Senhor Jesus ele foi tentar!

Quando mais tarde em terras de Sevilha, já pai de meu filho mais velho, numa Semana da Paixão, com tempo ensolarado, por suas ruas vi a procissão do Senhor Morto. Brilhante, majestosa, tendo encapuçados com lanternas, uma banda tocando músicas fúnebres. Lá uma Verônica cantando  estendia seu pequeno lenço que a tradição diz ter enxugado piedosamente o rosto de Cristo, ficando nele impressa sua imagem. Foi nessa vez que reencontrei – talvez em suas origens – as matracas de minha infância. Hoje passados esses longos anos também vieram ocupar o entardecer de minhas memórias.

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Plantonista do HMI Goiânia de 1986 a 2013.
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