Ponto de vista

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O que tem acontecido nesses dias no Brasil tem suscitado opiniões e análises diversas e discordantes. Claro que direito de opinião e poder manifestá-la é garantia constitucional e um direito individual contido logo sob o título: Dos Direitos e Garantias Fundamentais. Na Carta da Nação esses “direitos são garantidos, sem distinção de qualquer natureza”  – IV – “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”; e no – XVI – “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

O fato é que as pessoas têm saído às ruas. São fundamentalmente jovens, mas não só, mesmo tantos, como eu, não o tendo feito, não estamos alheios ao que motiva este movimento. Vejo que a motivação inicialmente alegada como o reajuste de preços em passagens de transporte público, de imediato afloram outras razões subjacentes do descontentamento. Fica evidente que não é uma revolta, mas um grande grito compartilhado dizendo: Oi, não aguentamos mais.

Não aguentamos mais esse modelo, não aguentamos mais as estruturas desse modelo, os que o executam, os que as organizam ou legislam e julgam. A proteção ao lucro, a ganância, a corrupção modelar que grassa em todos os campos.

Desde o começo não foram os pequenos aumentos, mas o entendimento de que o direito à chamada mobilidade, sempre prioriza o individual e não o coletivo, as ruas são para os carros, os “coletivos” são tratados como se fosse um correspondente da categoria gramatical: uma manada! O público é transferido ao privado em concessões, com todas as garantias de lucro, e os interesses protegidos, num formato de legalidade não discutida. Basta ver que o subsídio às empresas que detêm o “direito de explorar” é feito no quantitativo transportado. Não importa como e em que condições. Pessoas não são tratadas como tais; animais levados em gaiolas para o abate são transportados com menor desconforto.

Teria de haver o contraponto ao subsídio dos cofres públicos por passagem a exigência de um limite máximo de pessoas por ônibus ou vagão. Isto sem tolerância de prazo. A disponibilidade haveria de ser imediata. Há como empregar a informática para conhecimento instantâneo de demanda e destinos.

As vias e as áreas urbanas não sendo pensadas para o coletivo, os de menor poder ou posse necessitam deslocar-se cada vez de maiores distâncias para o trabalho ou demanda dos serviços que não são oferecidos em seus locais ou bairros. Num simples exercício numérico: as pessoas espremidas num vagão ou ônibus poderiam utilizar outro igual e ambos ficariam repletos em pé e assentados, mas guardar-se-ia um mínimo e decente espaço entre si. Hoje nem as sardinhas são tão espremidas na lata! É o mínimo respeito que deve o administrador público exigir daqueles a quem entrega ou concede o direito não de “explorar”, mas de prestar um serviço e obter seu lucro.

Tivesse sido tão só pelo aumento de poucos centavos nas passagens o movimento teria tido razão suficiente para o grito que vinha de muito sufocado e pipocando raramente numa ou noutra ação isolada de ira explosiva. Todos esses usuários têm obrigações e horários e dispendem muita energia, tempo, paciência e tolerância, eles estão dizendo um basta! Somos gente, pagamos impostos, o que estão fazendo conosco? O momento é de fato o mais oportuno, as novas arenas esportivas foram expostas, propagadas e visitadas. O investimento grande vem dos cofres do Tesouro. Houve equivoco nas prioridades dos gastos. O país precisa sim de infraestrutura primeiramente em outras áreas, depois o suntuoso estádio.  É lembrar o “pão e circo” dos imperadores romanos.

No meio dos que pegam seu cartaz sem máscara (sem cara escondida) como o texto constitucional garante, aportam poucos outros – mascarados, baderneiros e praticantes de arrastões e atos de violência – o que em nada muda o sentido e a razão do grito. É por direitos plenos de cidadão que o Brasil saiu às ruas!

Políticos e algum palpiteiro oportunista dizem: – é sem rumo, sem liderança! São jovens estudantes, é compreensível seu arroubo! Não vêm que: não é exclusivo deles, sim do povo; que  são esses partidos, esses políticos, esses interesses é que estão sendo excluídos do ideário dessa massa. Desde o fim do regime de exceção se esperou tolerantemente por essas soluções  que não vieram. Partidos promissores se substituem e apesar de pequenos avanços a decepção e o desengano continuam, assim como continuam a corrupção, o fisiologismo, o jogo de interesses e o acasalamento do poder político com o econômico e financeiro. Precisamos estar atentos para saber identificar manipuladores de qualquer matiz partidário e os verdadeiros leitores desses sinais todos, o povo espera que eles surjam verdadeiros nas várias estruturas da nossa forte democracia.

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Participou do corpo Clinico do HMI Goiânia de 1986 a 2013. Homeopata unicista.
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5 respostas a Ponto de vista

  1. Ricardo Gil disse:

    Excelente texto! Concordo plenamente!!! Está na hora de termos qualidade de serviços e agentes públicos compatíveis com o altíssimo preço que pagamos. Não dá mais para pagar conta de 1º mundo e receber serviços de 3º mundo, geridos por agentes públicos de 5ª categoria. O que os brasileiros querem é seriedade e compromisso para com o povo. Precisamos evoluir, andar para a frente!!!

    • Já se observa um resultado positivo. O congresso não aprovou o projeto chamado de PEC 37. O governo Dilma tentou absorver (ou entender) de forma atabalhoada a voz das ruas. O povo aguardou tanto para sair às ruas e gritar! Ai vem o executivo sem ouvir (sem refletir, para incluir os itens todos contidos no clamor) e sai com uma promessa de plebiscito de reforma constitucional, de constituinte exclusiva. Ainda bem que magistrados da suprema corte (estes por dever de ofício têm-se mostrado mais sensatos) alertam que isto seria passar um cheque em branco.
      Qualquer reforma que venha terá de ser validada pelo povo, esse é o sentido do clamor, que também já sinaliza as direções que a mesma deve ter. É aguardar para ver. Não será no imediatismo de respostas impensadas que se encontrará solução. A correção de erros e retrocessos como da PEC 37 será sempre louvável. Que Deus, nesses tempos, dê uma atençãozinha a esse nosso Brasil. Por certo caminharemos então em boas estradas.

  2. João Ogando disse:

    Da profusão de notícias e análises que me chegam da pátria distante e me causam um misto de apreensão e de esperança, faltava esta serena apreciação do velho amigo Francisco Sales, que sempre norteia suas intervenções pelo bom senso e pelo distanciamento crítico. Para quem viveu o golpe de 1964, as ocorrências atuais, sobretudo as que começam a danar a economia – com o bloqueio da fluidez das mercadorias – não deixam de evocar sinais de perigo. Mas não basta atentar nesses sinais de golpismo e evitar a qualquer custo que frutifiquem. É preciso cuidar da res publica com seriedade e respeito, o que não tem acontecido e daí o grito «por direitos plenos dos cidadãos» como bem se observa no texto. A minha esperança é que prevaleça o bom senso, coisa sobremodo difícil quando se trata de movimentos colectivos e, quem sabe, aparentemente desordenados, como agora está acontecendo. Esperança que todavia saiu reforçada com a leitura deste PONTO DE VISTA maduro, sereno e sempre muito atento, do meu amigo Francisco. Grato, desta lusitana lonjura, pela luz tranquila que me fez chegar.

    • Sim amigo, devemos atentamente manter a esperança. Graças à facilitação que o progresso da comunicação nos trouxe, tudo está acontecendo rápidamente e isto pode ser o único motivo de apreensão.

  3. Rejaine disse:

    Bravoooo!!!! Excelente texto!

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