Conflitante!

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Acompanhando notícias da OMS, observa-se que ela preconiza sempre mudanças de hábitos. Fornece informações sobre melhor nutrição, traz crítica (velada) ao consumismo desenfreado e ao modo enganoso da divulgação e publicidade para alimentos.

Tem surtido efeito: em nosso país começaram proibições de publicidades de bebidas alcoólicas em determinados horários e a sua venda a menores de 18 anos. Assim também outras medidas como a de imagens terrificantes, alertas gritantes sobre malefícios do cigarro.

Não vou entrar na discussão sobre os alucinógenos e entorpecentes. Estes hábitos são adquiridos por uma decisão individual, movida talvez por desejar ou buscar uma pretensa felicidade, um devaneio ou “viagem” a um mundo fantástico. Desencadeado tanto pela busca desse sonho fantasioso da pura fruição do momento prazeroso, como empurrado pela fuga dum mundo visto e sentido como perverso.

Vou ater-me em analisar alguns aspectos daqueles hábitos gerados por necessidades vitais: a busca do alimento. Com o tempo e usos esses foram sedimentando constituindo um fundamento cultural; são distintivos de povos e nações. A evolução e a prosperidade da humanidade trouxe o acúmulo de bens. A defesa dos celeiros e dos campos de plantio e cultura geraram muitas guerras e a expansão de alguns povos e o domínio sobre outros.

Como referência trago a figura lendária de “El Rei Dom Sebastião” (século XVI) “desaparecido” na batalha de Alcacerquibir.  – caravela e a Cruz de CristoPortugal em franca expansão de seus domínios, com interesses mercantis  e presença no norte de África através das fortificações para defesa de seus navios e mercadores, investe avultado recurso para montar um forte exército e ali expandir seu comércio e zona de influência. O império otomano também avançava no Marrocos. O rei português pretendia ter o controle do comércio de víveres e outros bens, além do ouro, o açúcar da Ilha da Madeira, marfim e pigmentos, as chamadas especiarias, nessa antiga rota comercial do Mediterrâneo. O então descoberto “Caminho das Índias” por Vasco da Gama, mostrava-se longo e as viagens dispendiosas.

Com a derrota do grande exército português (04 de agosto de 1578) e seu aliado marroquino,  o jovem e valoroso rei não mais foi visto, nem seu corpo. Com as despesas da guerra,  pagamento do resgate batalha de Alcacerquibirdos cativos de guerra (16 000 soldados) e a morte do rei, que não deixara sucessor, gerou-se um vácuo de poder e grande embaraço no quadro político da Metrópole. Logo anos depois Portugal é dominado pela coroa espanhola por 60 anos.  

Este preâmbulo fica aqui justificado, porque corresponde ao início da formação de nosso país e nacionalidade, e é ilustrativo do velho ditado “farinha pouca: meu pirão primeiro”!

Uma constatação: em nossos dias nunca no mundo consumiu-se tanto alimento (per capita). A produção dos mesmos continua sendo cada vez maior, mais eficiente e mais tecnificada. Para tudo há fiscalização.

aumentamos o tamanho das nossas porções e ganhamos peso

aumentamos o tamanho das nossas porções e ganhamos peso

O afã da busca da chamada qualidade, do melhor índice de produtividade (esquecidos os do desperdício em toda a cadeia de produção e consumo). Isto determinado pela competição, pela vantagem, pelo marketing.

O cultivo de subsistência, ou comunitário, reduziu-se aos recônditos inacessíveis à fiscalização ou a pequenos aglomerados ou grupos de retomada de consciência que evitam os agrotóxicos e adubação química.

Com isso a saúde pública teve alguns ganhos, no desparecimento ou na drástica redução das infeções, das contaminações.

O porco ganhou “status” e passou a ser suíno.  Sua carne já não é mais o vetor das cisticercoses e teníases. Feita a toalete da banha, fica até menos gorda que muitas outras! Toda sua cadeia de produção e abastecimento até ao consumidor final é fiscalizada, garantida,  até mesmo com selo de procedência. O que determina isso, a meu ver,  não é só o interesse pela saúde pública. O que anima esse esforço talvez seja mais a busca da competitividade e da eficiência, para conquista do mercado e maior ganho.

Todos temos culpa. E é preciso mudar.

Todos temos culpa. E é preciso mudar.

As técnicas publicitárias de douramento e maior palatabilidade de todos produtos destinados à alimentação, criam uma necessidade, imoderada. As mentiras não deslavadas, mas bem embaladas junto com outros objetos de desejo e sonhos de consumo, transformam produtos – que nem deveriam ser autorizados por órgãos cuidadores da saúde – em fonte de puro prazer, hábito e vício.

Qual o resultado? –  geração de obesos em todas as faixas etárias. Qual a  consequência? – problemas de saúde pública, endemias, já não parasitárias ou infeciosas. Uma turba de deseducados em alimentação, de viciados, sem temperança. Ai incluem-se os “fast-food”, os achocolatados e as guloseimas super adocicadas,  as papas, os suplementos de alimentação infantil, etc. Estes últimos começam a ser introduzidos desde bebezinho – “há que ser docinho para ter sabor”, se não ele não vai gostar!

Pode até ser saboroso, mas o exagero o torna prejudicial

Pode até ser saboroso, mas o exagero o torna prejudicial

Ou aquelas outras guloseimas com excesso de sal, que também levam ao desequilíbrio do sentido do paladar. A criança passa a conhecer e a apreciar o que o acostumaram e ensinaram-no: o sabor do adocicado, do sal. O verdadeiro sabor do alimento é camuflado. Nunca será aprendido, nem degustado.  Esta é a fase mais importante de nosso aprendizado em comer, em nos alimentar. Há mães que acrescentam açúcar na banana amassada!

A nossa conversa teve inicio com algo a ver com as especiarias e seu comércio, pois bem, os temperos são todos usados em pequeninas proporções e ainda: todos eles têm uma ação facilitadora da digestão dos mesmos, além de mudar um pouco o aroma e dar maior palatabilidade, despertando assim maior desejo pelo alimento.

No viés dessa compreensão, surge e é publicada em maio de 2006 uma portaria normativa interministerial, a de número 1.010 “Institui as diretrizes para a Promoção da Alimentação Saudável nas Escolas de educação infantil, fundamental e nível médio das redes públicas e privadas, em âmbito nacional.” Nos seus considerandos reconhece que ainda pode haver desnutrição e é necessário o seu combate, mas também que o perfil epidemiológico da população tem mudado, aumentando as doenças crônicas com proporção alarmante de obesos especialmente entre crianças e adolescentes; estas passíveis de ser prevenidas a partir de mudanças nos padrões de alimentação, na luta contra o tabagismo e estímulo da atividade física. Identifica e fundamenta que o nosso padrão alimentar é densamente calórico, rico em açúcar e gordura animal e dieta reduzida em carboidratos complexos e fibras.

é preciso contrabalançar!

é preciso contrabalançar!

O documento legal estabelece as diretrizes de um programa de Alimentação Saudável nas Escolas tanto na rede pública quanto privada. Reconhece que esta é um direito humano e deve compreender um padrão adequado às necessidades biológicas, sociais e culturais dos indivíduos em cada  fase de sua vida. Estabelece os eixos dessa educação alimentar e nutricional, estimula a produção de hortas escolares! O dispositivo legal é completo e ainda insere nos demais processos de aprendizagem o tema e conteúdo de Alimentação Saudável. Interdita a venda ou fornecimento de produtos com alto teor de açúcar livre, sal e gorduras trans.

O próprio documento afirma que é uma medida para busca de adequação a parâmetros da OMS. A Portaria conjunta dos Ministérios da Saúde e Educação é em tudo louvável; preventiva, a atitude da norma. alimentacao-saudavelEsperamos é que – se tudo isto é reconhecidamente maléfico para a saúde pública – a medida venha a atingir também fora dos muros escolares. As crianças e jovens não passam a vida lá. Os demais, não escolares, têm direito aos serviços e cuidados do Estado. Porque permitir a divulgação, a comercialização, a produção daquilo que é sabidamente não saudável? É contraproducente com o objetivo da educação alimentar.

Nossos hábitos alimentares já estão por demais desencaminhados, e mudança só será conseguida com medida legal semelhante estendida a todos. As crianças serão objeto de atenção num período do dia, mas logo serão bombardeadas com rótulos chamativos de produtos nas gôndolas dos mercados, com excessos de coisas perniciosas a saúde num longo prazo; bombardeados com peças publicitárias muito bem produzidas e indutoras do consumo daquilo que a escola restringe.

agrada aos olhos, é equilibrado, é saudável

agrada aos olhos, é equilibrado, é saudável

Por sua vez a mobilidade ocorrida – em bom tempo das classes sociais – leva à busca dos padrões de consumo da sua nova posição na estratificação econômica e social. O E.C.A protege a criança e o adolescente das “palmadas corretivas” que bem fizeram a mim e a outras tantas gerações, mas não cuida deles nos malefícios – quase sempre permanentes – causados pelos erros alimentares.

Conflitante, não?

 

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Participou do corpo Clinico do HMI Goiânia de 1986 a 2013. Homeopata unicista.
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2 respostas a Conflitante!

  1. Caro Dr. Francisco,
    De acordo com sua manifestação.
    Temo que o poderio econômico da indústria de alimentos seja um dos fatores dificultantes para alteração deste estado de coisas, pois o nosso poder político está totalmente subjugado. Veja que, no Brasil, para pequenas alterações de quantidade de sal, gordura trans em alguns alimentos é preciso anos de negociação, pactos, termos de ajustamento de conduta, etc.etc. e ainda alguns anos mais para iniciar uma tímida modificação industrial.
    Acho que precisaríamos ter políticos por aqui como o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, que está “peitando” esta situação sozinho. Tenho postado no saude-joni.blogspot.com.br algumas destas atitudes dele, para fazer repercutir um pouco entre nós posições que alguns da “pátria capitalista” estão adotando e nós, como “bons colonizados”, não!
    Tenho, também, acompanhado a atuação do Instituto Alana, de São Paulo, empenhado em controlar a publicidade voltada às crianças. Se não conhece, dê uma olhada.
    Outro artigo que li esta semana, talvez lhe interesse:
    http://www.reuters.com/article/2013/01/03/us-video-games-idUSBRE9020ID20130103
    Parabéns pelo trabalho e … sigamos! Para frente, não?
    Um abraço.
    Joni

    • Sim, é esse o pano de fundo que também identifico, mas temos que caminhar e juntar mais gente que vá abrindo alguma clareira, no pensamento crítico, nos poucos políticos sensíveis. Vamos em frente.

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