Janelas quebradas!

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Acredito que toda e qualquer sociedade se preocupa hoje com o avanço do crime, ferindo a integridade individual ou a própria vida. Os atos de violência são mesmo preocupantes. Se formos refletir mais no tema chegaremos a uma conclusão: grande parte da humanidade tem se pervertido! Inquietamo-nos em indagar como serão os dias das próximas gerações. Os crimes tomam cada vez mais as tintas de crueldade e os criminosos demonstram uma cabal evidência de “desalmados”, de inumanos. A alma não é só aquela parte de nós que transforma o aglomerado de matéria em vivente, mas também lhe confere a essência da Pessoa, distinguindo-nos dos animais, tornando-nos humanos. Confere-nos intelecto e sentimentos, torna-nos além de gregários – seres sociais.

Há que buscar razões e explicações. Não serão leis brandas e não aplicadas que farão elementos, que não encontraram um bom caminho, desistirem e retornarem a um convívio harmônico em sociedade. Também não é a pobreza a porta aberta para uma marginalidade social. O crime se organiza, acumula fortunas, estrutura-se como um poder paralelo desafiando e em muitos sentidos levando vantagem sobre o Estado. Vejamos as louváveis ações de combate ao crime levadas com certo êxito na Cidade Maravilhosa. O Estado entendeu que deveria estar presente nos morros, não só com as denominadas Unidades Pacificadoras. Hoje ainda não passaram mil noites e o que vemos? À plena luz do dia, com registro de sistemas de imagens de segurança o crime mudando de endereço daquela cidade, buscando outras, interiorizando-se. O uso e o tráfico de drogas é o que alimenta e arma este poder. O retorno a um convívio sem tanto medo em sociedade, passa por vencer estes dois obstáculos. Em grandes e pequenas cidades, aglomerados urbanos Pessoas se transformam em farrapos humanos e são capazes de atrocidades revoltantes. Basta relembrar noticiários recentes: moradores de rua (em função do crack) se matam e são mortos por um nada.

A banalização da violência em sua última consequência permeia um grande contingente da população: São Paulo, jovem caminha do ponto de ônibus para sua casa; ao entrar nos portões de seu condomínio é assaltado. O individuo, também um jovem, exige que lhe entregue o celular. Pelo próprio susto do momento, hesita, mas logo entrega e sem esboçar qualquer reação é alvejado por um tiro na cabeça e morre.  Outra notícia: Dentista é queimada viva  por ladrões em SP. “A dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza foi queimada viva dentro de sua casa por um assaltante em São Paulo. O crime bárbaro foi cometido pelo fato da dentista ter somente R$ 30,00 em sua conta bancária”. Eis o primeiro parágrafo síntese do relato. Em seu consultório, onde ocorreu o crime, nada tinha! Crianças esquartejadas em seguida de violência sexual! Encerro com os exemplos por não querer transformar o assunto em crônica policial ou do crime.

janela quebradaHá uma teoria Brocken Windows que pode, a meu ver, trazer um pouco de luz ou explicação desses tão graves desvios de conduta. Trago aqui uma síntese dela. Levantada primeiramente por Philip Zimbardo em 1969. Colocou ele um carro velho e enguiçado no Bronx, um outro em igual estado de conservação em Palo Alto, Califórnia. Características sociais de Bronx – bairro habitado por afrodescendentes, latinos, porto riquenhos, albaneses; em suma – os pobres, com gangues locais. Palo Alto – localizado perto de mansões hollywoodianas, os ricos e de bem. Ambos os carros, não traziam suas placas, identificando evidente abandono. O que aconteceu? Em 10 minutos depois de “abandonado” o carro do Bronx começou a ser depenado. Alguns dos “vândalos” eram pessoas de bom traje e de pele clara. Em 24 horas  nada mais havia no carro que pudesse ter algum valor; seguiu-se uma destruição aleatória, os vidros foram quebrados e as crianças brincavam nele.  Em Palo Alto durante uma semana o carro não foi tocado. Então o pesquisador, com uma marreta deu alguns golpes no carro. Não decorreram horas e logo os passantes acabaram por destruí-lo. Mais uma vez, eram os “vândalos” bem vestidos e brancos na grande maioria dos que assim agiram.

No primeiro carro destruído houve uma depredação com retirada daquilo que pudesse ter algum valor, seguido de sua destruição. No segundo: enquanto restava uma discreta aparência de cuidado não se tocou. Bastou ficar evidente o descuido e abandono para que por pura diversão fosse o carro revirado e destruído.

Verificou-se também em outros estudos que uma casa fechada por muito tempo, se se quebra um vidro em sua janela e é logo reposto mantem-se ali. Não havendo reposição ou reparo, pouco tempo depois aparecerão outros vidros quebrados e mais ações de vandalismo, não importando tanto o padrão da vizinhança.

Sabe-se de um típico exemplo de aplicação dessa teoria e a consequente queda da criminalidade em Nova York depois dos anos 90 para cá. Coseguiram  isso com uma presença maior do poder do Estado, na prevenção do crime, com a polícia em rondas a pé, com a limpeza e conservação dos espaços públicos.

Para o nosso país eu ainda acrescentaria a presença de bons serviços do Estado e acessibilidade a eles principalmente na educação. As escolas em tempo integral são o ponto fundamental para a solução desse mal, como também o é a oportunidade de profissionalização e lazer. Caso contrario vamos nos bestializar, desumanizar.

 

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Plantonista do HMI Goiânia de 1986 a 2013.
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