Pode parecer estranho!

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Registros de uma vagem (III)

Depois do passeio à ilha de Paquetá, acompanhamos o grupo maior de pessoas que saía da Estação das Barcas. Já era noite, alcançamos a Assembléia Legislativa. Aguardamos um pouco e logo avistamos táxis que foram logo ocupados pelos que chegaram à frente. Abriu um sinal e  um outro foi parado por certo rapaz, sozinho que se postara uns metros à nossa frente. O carro parou, observei que houve uma conversa entre motorista e provável freguês. Nisso vejo que o taxi avança para frente vagarosamente; faço sinal que pare, este atende. Ainda de fora, indago ao motorista se ele aceitaria levar-nos até ao hotel. Concorda e logo que entramos forneço o endereço. Aguardei avançarmos um pouco pela Rua da Assembléia e ainda antes de alcançarmos a Av. Rio Branco,  eu estava um tanto intrigado de ele haver recusado um passageiro, já perguntei:

– Observei que o senhor não aceitou fazer a corrida para aquele rapaz.

– Ora, meu senhor, eu estou na praça há muitos anos e aprendi a tomar minhas cautelas. Aquele rapaz queria que eu o trouxesse até aqui na Avenida Rio Branco. Ele veio também com um jeito e tom de voz … Eu nada tenho contra ninguém, nem mesmo opino sobre o que queiram fazer da vida e na vida, mas não aceito que interfiram comigo e no que faço.

Logo pediu desculpas pela presença de minha senhora e as filhas ainda pequenas e completou sua explicação da recusa acrescentando descrição de situações por ele já vividas.

– Muitos desses rapazes ou garotos são molestos, quando não perigosos. Assentam-se sempre no banco da frente, logo passam a mão sobre o apoio do banco do motorista e iniciam uma conversa melosa, que não me agrada. Eu quando noto isso mando que retire o braço e se não sou atendido, paro e encerro ali, em qualquer ponto que esteja.

Eu achei o senhor taxista seguro no que dizia e também não me pareceu preconceituoso. Justificou sua postura.

Pensei a cena  e me vi rindo de mim mesmo, pois com muita frequência, estando no banco da frente, apoio o braço esquerdo sobre o espaldar do motorista, para me virar para trás e ver como as meninas estão ou para conversar alguma coisa. Ali ainda não havia feito isso e nem o fiz mais e não corremos o risco de ser deixados a meio do trajeto!

Completou ainda sua argumentação exemplificando situações em que pessoas mal intencionadas usam o artificio de dar endereços equivocados, porque os nomes de ruas se repetem em diferentes bairros. Um deles informou a rua dizendo que seria em Vila Isabel, ele discutiu que lá não havia tal rua, mas acedeu e continuou. Chegando em Vila Isabel em via de nome parecido ao que dissera, já não era mais lá e sim no Morro da Mangueira. Lá foram para Mangueira, era bem noite. O perigo não foi só esse, o lugar não era nada seguro e a pessoa recusou-se a pagar. Ele não questionou muito e tratou logo de voltar, alegre até por nada de pior ter ocorrido com ele. Até chegarmos ao hotel repassou uma série de recomendações para termos quando andando pelas ruas da cidade.

Já no dia seguinte, por evitar estar em locais com grande aglomeração, providencialmente deixamos a praia de Copacabana para uma segunda-feira. Como havia feito anteriormente com os demais taxistas, iniciei conversa com este senhor Antônio. Não usava bigodes, não tinha sotaque carregado, mais parecia carioca que outros, no entanto era natural da Beira Alta, disse o nome da aldeia onde nasceu, que não me recordo. Veio com os pais ainda quando criança para o Brasil.

– Sou feliz por ter vindo, nunca lá voltei. Aqui constitui minha família, tenho meus filhos brasileiros, uma é química industrial e o rapaz está bem em seu negócio.

– Mas porque o senhor não quis mais retornar ao seu país?

– Hoje nem português eu sou. Fiz aqui o serviço militar, para isso naturalizei-me brasileiro, tenho aqui todos os direitos.

– O senhor pode, então, ter a dupla nacionalidade e pegar um passaporte que lhe dê algumas regalias de viagem na Europa, disse eu provocando a continuidade da conversa.

– Os meus filhos têm esse direito sim, mas eu não porque ao naturalizar-me brasileiro, neguei o direito de ser português. Eu o fiz por uma questão de buscar melhor oportunidade aqui no Brasil. Aqui estou bem, isto já nem me preocupa. Estive em Brasília por esta razão de cidadania e passaporte, não há recurso.

Enquanto ele alongava nalguma descrição sobre o bairro de Copacabana descrevendo algumas características fiquei pensando em como a vida dá voltas, tantos indivíduos são forçados a deixar suas terras por diferentes motivos, este senhor na busca de um sonho seu, para ter as mesmas oportunidades e direitos que os cidadãos brasileiros, infligiu a si mesmo um autoexílio.

Já chegamos ao Posto 9, próximo ao Forte de Copacabana, descemos do Taxi e aproveitamos para estar à praia.

TAXIFindo estes relatos extraídos das conversas com estes profissionais, justificando que os fiz por perceber neles diferentes personalidades e histórias, todos exercendo com simpatia e honestidade o serviço de transporte seguro ao cidadão e turista. Ainda além de cicerones, também folheiam páginas de suas vidas escritas com o seu trabalho. Meu respeito e agradecimento a todos esses senhores da Comissão de Frente.

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Participou do corpo Clinico do HMI Goiânia de 1986 a 2013. Homeopata unicista.
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