Posta restante

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Já trouxe aqui texto de Moacyr Scliar, num conto. Hoje refletindo, com alguma pausa encontrei novamente no autor a narrativa de um relato sensível e de boa observação de almas e comportamentos.

O escritor também foi professor de medicina. Dai, talvez, deriva um pouco a força de seu estilo e sua capacidade de captar o que não é demonstrado. O médico não está treinado somente para ouvir, solicitar exames, explorar sinais indiretos de sofrimento, palpar, mas, sobretudo: observar desde a fisionomia, o modo o gestual e atitudes. Vejam como isto pode ser identificado neste pequeno conto que transcrevo, extraído do livro Contos reunidos, editado pela Companhia das Letras, SP, em 1995.

POSTA RESTANTE

Certo dia, levantei-me, lavei-me, penteei-me, vesti-me, tomei café e fui à casa de nossa vizinha, a viúva Paulina.

A viúva Paulina era uma senhora de idade, muito boazinha. Por isso, e também porque era inválida (andava de cadeira de rodas), eu costumava prestar-lhe pequenos favores, tais como: cortar a grama de seu jardim, levar seu cão Pinóquio a passear e colocar suas cartas no correio.

Eram muitas, essas cartas. A viúva Paulina era assinante de uma publicação que relacionava missivistas do mundo inteiro. Assim, ela escrevia para países tão remotos quanto Sri Lanka, Japão e Tunísia. Cartas e mais cartas; gastava boa parte de seu modesto rendimento em selos. Com escasso resultado; só ocasionalmente recebia uma resposta. Mas isso não a desanimava; pelo contrário, escrevia cada vez mais. Nisso, segundo dizia, estava sendo fiel à memória do marido, um médico humanitário que morrera sonhando com um mundo unido. Legara à viúva Paulina uma mensagem de amor. E pouca coisa mais: uns livros velhos, um carro antigo, que ela vendera, um reduzido pecúlio. É que a maioria dos seus pacientes, gente pobre, não lhe pagava; um fato que a viúva não deixava de lembrar com emoção. Entre esses clientes estavam meus pais. De modo que na minha ajuda à velha senhora, havia também um componente de gratidão.

Passei, pois, na casa da viúva Paulina. Ela me esperava no jardim, sorrindo como de costume. Perguntou-me como ia no colégio, deu-me um pedaço de cuca que ela mesma tinha feito. E entregou-me uma carta. Uma só? – estranhei. É, uma só, ela respondeu, me olhando fixo. Peguei a carta e o dinheiro, despedi-me e fui embora.

Como de costume, dirigi-me para o parque. Joguei fora a cuca – estava horrível –, sentei-me num banco e, como de costume, abri a carta. Em geral era uma leitura que me divertia.

Nesse dia, porém, tive uma surpresa.

A carta era dirigida a mim. No envelope estava um nome qualquer, e um endereço nos Estados Unidos, mas a carta, a carta mesma, começava com um Prezado Chico. Chico sou eu. É o meu apelido.

E continuava a viúva.  Nunca esperei uma coisa dessas de você, Chico. Você por quem eu tinha tanta estima.

O caso é que descobriu tudo: que eu não botava as cartas no correio, que embolsava o dinheiro dos selos. O novo agente postal, que acontecia ser seu parente, lhe contara que eu nem ia à agencia. E concluía a viúva. Pensar que confiei em você. Pensar que eu lhe entregara minhas escassas economias, quando podia ter investido esse dinheiro. Podia ter comprado dólares, Chico.

Amassei a carta, joguei-a fora. Eu lembraria disso, quando chegasse a época de meus primeiros investimentos.

Moacyr Scliar   Moacyr Scliar

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Plantonista do HMI Goiânia de 1986 a 2013.
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