Registros de uma viagem

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TAXIRegistros de uma viagem. (I)

Chegados ao Rio de Janeiro neste princípio de Ano 2014, descemos no Aeroporto Santos Dumont. Ainda um pouco apreensivos com o ameaçador clima de insegurança, logo eu notei que esse temor deixou-me a mim e aos meus, mais prosas. O primeiro taxista não deve ter ficado feliz de fazer um serviço com duração de uns dez minutos até ao hotel. Nada falou e pouco respondia ao que nos atrevemos a perguntar: tempo, fluxo de pessoas, elogios ao Aterro do Flamengo, a admiração das belezas num dia de céu transparente e com muito sol. Para ele devem ter soado como prosáico e enfadonho. Nas muitas vezes que utilizamos os serviços de taxi não foi essa a figura que mais encontramos. Na verdade a simpatia e o bom trato prevaleceram.
Depois de um rápido contato com a cidade e sua gente verifica-se que o seu clima humano é o de sempre, cordial. A insegurança corresponde àquela geral do país. Aos poucos a gente vai se desarmando. Muita importância nesse desarmamento e baixar da tensão têm os taxistas. Estes são os membros da comissão de frente, na terra do samba.  Destaco aqui alguns desses personagens que colaboraram para nosso bom descanso no Rio.

Do hotel até à praia da Urca levou-nos o senhor Miguel, elucidou-nos parte da história do bairro, da sua tranquilidade, comentou do seu tempo na Faculdade de Pesquisa Mineral (UFRJ). Notava-se nele o entusiasmo do jovem estudante que depois logo trabalhou muitos anos na Petrobras. Passou por alguns comentários sobre o grande potencial nacional e o caminho de sua exploração. Descreveu alguns imóveis do “Rei” RC; o abandono da antiga TV Tupy (velho Cassino da Urca), porém soube criar um ponto alto em sua narrativa.

Passávamos por uma larga avenida, frente aos prédios da UFRJ quando ele disse: Vêm aqueles ónibus enfileirados ali? – ficou a pergunta em suspenso.

Seguiu a conversa. Já sabendo que eu sou médico, elogiou os avanços e sucessos da medicina, a dedicação e generosidade nossa de discipulos de Hipócrates.

Parou próximo a uma curva e retomando a narrativa interrompida, disse: Há um ano um jovem saindo de moto por esta curva em alta velocidade acabou batendo violentamente num ônibus parado naquele lugar que mostrei. Foi muito grave.

Observei em seu semblante emoção e saiu-me a pergunta simples: Era seu filho?

– Não, disse ele, hoje tenho no peito um coração de vinte e um anos, eu fui o receptor do coração desse jovem. Há um ano bate aqui no meu peito.

Olhando em seu semblante feliz e emocionado, cumprimentei-o pelo sucesso, pela gratidão que mostrava ao jovem doador. Descemos na praça da praia vermelha, pedi o seu cartão. IMG_0036

No dia seguinte decidimos pegar o trenzinho para o corcovado. O condutor do taxi que paramos para chegar até Cosme Velho, trajava boa roupa, engravatado e com seu paletó no encosto do banco. Um senhor de boas feições, boas falas, com acento não carioca.

Pelo estereótipo do bigode, perguntei: – Por acaso o senhor é da boa terrinha, ao lado do Tejo?

– Não, eu sou da República do Ceará, respondeu ele com bom espírito.

Entabulamos logo uma conversa fácil. Contou ter vindo em criança para o Rio, ter trabalhado muito. Ganhou dinheiro e usou para bem viver. Consumiu parte do ganho e muito do seu tempo com gafieira e boa vida.

Voltou ao seu Ceará uma única vez, bem abastado, nem se recorda qual o nome da moeda da época. Dinheiro suficiente para comprar uma casa ou um apartamento.

IMG_1094Mora no que é seu, tem seu carro para trabalhar quando quer e com prazer. Fez um investimento num imóvel que aluga em Santa Tereza e pensa conseguir repetir isso, mesmo com o aumento do preço do imóvel na cidade.
– Trabalho para quem quer não falta, mesmo que os taxis estejam fazendo filas esperando por passageiros! – disse o nosso condutor parando para descermos frente à estatua do Eng. João Teixeira Soares, na estação Cosme Velho para o bondinho do Corcovado.

Guardei na memória este simpático senhor, bom pé de valsa e boa vida saído pobre de Crateús no Ceará, não dispensa o trabalho e o faz com ar feliz!

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Plantonista do HMI Goiânia de 1986 a 2013.
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2 respostas a Registros de uma viagem

  1. Bernadeth disse:

    O mundo é demais, basta olhar com Boa vontade. Adorei o texto.

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