Uma tarde com o poeta.

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Ah! se todos fossem iguais a você!

Coimbra, transcorria o ano de 1968. Estudantes brasileiros, em virtude de um acordo cultural firmado entre o Brasil e Portugal, estávamos presentes nas três universidades portuguesas, com uma predominância na velha Coimbra. Provindos dos quatro cantos do Brasil, a grande maioria sem vinculo familiar com a terra lusitana, dispersos nos vários cursos e o maior número na Faculdade de Medicina. Eu havia chegado em 1967 outros poucos no ano anterior.

Desse lado de cá do Atlântico o Brasil passara recentemente por golpe militar. A pasta da Educação comandada pelo também militar Jarbas Passarinho não tinha solução para a crônica e crescente falta de vagas nas universidades. O pano de fundo de insatisfação da sociedade que questionava o regime militar, antevendo e pressentindo seus atos repressivos só assinalo aqui, para um contexto temporal.

Noutro lado, Portugal debatia-se na guerra de dominação de suas colônias. Sua juventude ia se extinguindo ou mutilando-se em terras de África. O salazarismo continuado por Marcelo Caetano se travestia com algum ar de modernidade;  nas cidades e aldeias o que mais se via eram mulheres novas e idosas enlutadas, de lenços e xailes negros: as “viúvas”  de noivos, maridos e filhos mortos em Angola, Guiné e Moçambique. Os programas de televisão, estatal (RTP) correspondiam aos horários das três principais refeições, alongando-se pela noite até pelas 22 horas ou pouco mais. Bancos e comércio encerravam para o almoço. Ainda nesses hábitos as moças raramente trajavam outra coisa que não fossem vestidos ou saias. Após algum tempo já se viam as calças jeans e no verão alguma minissaia. Nos quartos de aluguel para estudantes ou nas pensões banhos frios eram liberados já os banhos quentes eram limitados, se mais que dois os valores seriam outros!

Os mais de 300 jovens universitários brasileiros participando ativamente da vida acadêmica, frequentando a única cantina universitária e seu convívio com as instalações da Associação Acadêmica, além das adjacências da Praça da República, Av. Ferreira Borges e a Baixa de Coimbra, essa presença mexeu e muito com os hábitos e rotinas da cidade. Alguns atos de desvios,  certo que ocorreram e foram motivo de escândalo.

Já os brasileiros haviam organizado, ordeiramente, algumas festas como Passagem de ano e Carnaval. No ambiente acadêmico e das “repúblicas” estávamos bem inseridos e sem desentendimentos. Mas, no imaginário geral e no atavismo de alguns costumes e preconceitos, os modos e maneiras dos brasileiros começaram a incomodar. Por outro lado, nós passamos a sentir incomodados com comentários em pequenas notícias, secção de cartas de jornais, com ilações e supostos atos, não individualizados, tidos como perturbadores dos bons modos. Foi ai então que os mais atentos ao contexto da vida acadêmica e urbana decidiram fazer algo para diminuir essa dissonância. Conseguimos sensibilizar o adido cultural –  à época o diplomata Otto Lara Rezende – que compareceu em Coimbra e no Café “A Brasileira,”  à rua Ferreira Borges, expusemos  a ele os fatos. Lembro-me que entre nós estava a “tia” do colega Jéssie, pessoa influente, por intermédio de quem foi possível esse encontro, com a autoridade diplomática. Fruto disso: os noticiários locais fizeram respeitosas notas sobre o fato, o diplomata sensibilizou-se prometendo apoio à nossa presença naquela Universidade, exaltou os aspectos do convênio e o quanto nós próprios, estudando ali, tínhamos a ganhar para nossas vidas.

Outro desdobramento advindo dai – e foi o que mais ajudou – logo uns dois meses depois, compareceu na Associação Acadêmica nada mais nada menos que Vinicius de Moraes e Toquinho, que nos brindaram a todos cantando e declamando sua obra, ali mesmo nos bancos do Convívio da Acadêmica. Hoje reverencio essa imagem sua, sem tietagem, sem cachê; pura solidariedade por seus patrícios, que distantes necessitavam de apoio e ele com seu nome e arte esteve ali por mais de 4 horas num espetáculo que só nos custou o pouco Uísque que consumiu e alguma água mineral. Foi para mim e para muitos brasileiros e portugueses um evento inesquecível.

Pelos conselhos do samba da bênção, pelos que não respeitaram a regra 3,  Muito obrigado poeta. Ah se todos fossem iguais a você! Pela surreal “Casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada.”… Pelas galantes juras de Soneto da fidelidade! Mais uma vez obrigado!

No seu centenário compartilho aqui a lembrança desse ato de generosidade e amizade pelos jovens sonhadores que éramos; melhor: ainda somos.

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Francisco Sales

Sobre Francisco Sales

Médico formado pela Universidade de Coimbra (1974), especialização em Tocoginecologia (TEGO) e em 2003 Especialista em Homeopatia pela AMHB. Plantonista do HMI Goiânia de 1986 a 2013.
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